Análise de 229 mil adultos no EASD 2026 identificou 789 espécies bacterianas associadas ao diabetes tipo 2, detectáveis antes das alterações no açúcar no sangue.
28/09/2026
Gostou da publicação? Compartilhe e de uma força para o Leveza!
O diagnóstico do diabetes tipo 2 depende, na maioria dos casos, de um exame de sangue: quando a glicose em jejum ou a hemoglobina glicada ultrapassa determinados limites, o diagnóstico é confirmado. Mas e se fosse possível identificar o risco anos antes, quando o açúcar no sangue ainda está dentro dos limites normais? Uma nova pesquisa apresentada no congresso da Associação Europeia para o Estudo do Diabetes (EASD) sugere que o microbioma intestinal pode oferecer exatamente essa janela de antecipação.
O estudo foi conduzido pelo pesquisador Gabriel Baldanzi e pelo professor Nicola Segata, do Laboratório de Metagenômica Computacional da University of Trento (Itália), em colaboração com o projeto ZOE — coordenado pelo professor Tim Spector, um dos nomes mais respeitados na pesquisa de microbioma. A análise envolveu dados metagenômicos de 229.025 adultos do Reino Unido e dos Estados Unidos, sendo 3.627 com diabetes tipo 2, 14.022 com pré-diabetes e 211.376 com glicemia normal. Com 73,8% de mulheres e idade média de 50 anos, a coorte é a maior já utilizada para esse tipo de análise.
Os pesquisadores identificaram 789 espécies bacterianas cuja presença ou ausência está associada ao diabetes tipo 2, após ajuste para idade, sexo e índice de massa corporal. O padrão é revelador: enquanto 168 espécies aparecem em níveis mais altos nas pessoas com diabetes tipo 2, outras 621 espécies estão reduzidas — sugerindo que o intestino das pessoas saudáveis abriga uma diversidade microbiana protetora que vai sendo perdida conforme a doença se instala.
Entre as espécies mais relevantes, a Enterocloster bolteae foi encontrada em maior abundância nas pessoas com diabetes tipo 2. Essa bactéria pode formar esporos e já havia sido associada a pior saúde cardiovascular e metabólica em estudos anteriores. Por outro lado, a Romboutsia timonensis — uma espécie descrita pela primeira vez apenas na última década — apareceu em menores quantidades nas pessoas com a doença. Algumas das espécies identificadas eram completamente desconhecidas da ciência e foram caracterizadas pela primeira vez diretamente a partir dos dados metagenômicos do estudo.

O dado mais promissor do estudo vem da análise dos participantes normoglicêmicos — pessoas sem diabetes nem pré-diabetes — cujos níveis de glicose após as refeições foram monitorados. Entre os 135.093 adultos normoglicêmicos com dados de glicose pós-prandial disponíveis, aqueles cujo açúcar no sangue permanecia elevado por mais tempo após comer (um sinal de resistência à insulina incipiente) apresentavam maior probabilidade de ter o padrão microbiano característico do diabetes tipo 2. Esse padrão se tornava mais pronunciado à medida que a resistência à insulina aumentava — mesmo antes de qualquer diagnóstico formal.
“Identificar essas mudanças microbianas claras antes que os níveis de açúcar no sangue piorem poderia levar a intervenções mais precoces com escolhas alimentares e de estilo de vida, bem como opções de tratamento, para prevenir o diabetes tipo 2”, disse Spector. O professor Baldanzi acrescentou uma dimensão motivacional: se fosse possível mostrar a alguém que as alterações benéficas no microbioma estão ocorrendo como resposta à mudança de dieta e atividade física, isso poderia ser “uma poderosa fonte de motivação para continuar”.
Os pesquisadores são cuidadosos ao posicionar o microbioma como complemento — não substituto — dos exames tradicionais de glicemia. A análise do microbioma não deve substituir os testes padrão usados para diagnosticar diabetes ou pré-diabetes. Em vez disso, poderia oferecer informações adicionais sobre o risco de uma pessoa, ao lado de fatores já conhecidos como sexo, idade, IMC e histórico familiar.
“Esses resultados foram possibilitados pelo tamanho sem precedentes da coorte ZOE, assim como pelos avanços que desenvolvemos em nosso laboratório nos métodos computacionais necessários para interpretar dados metagenômicos”, destacou o professor Segata. A próxima etapa para o campo será confirmar esses achados em estudos longitudinais — acompanhando pessoas ao longo do tempo para verificar se o padrão microbiano identificado realmente precede o desenvolvimento do diabetes — e explorar se intervenções no microbioma (via dieta, probióticos ou outros meios) podem efetivamente reduzir o risco da doença.