Assumir um cargo de gestão pela primeira vez é desafiador — e também é uma oportunidade real de crescimento. Entenda o que a ciência e a prática dizem sobre como liderar com autenticidade desde o início.
30/05/2026
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Você passou anos aprendendo a entregar bons resultados como profissional. E então chegou o momento: uma promoção, uma nova oportunidade — ou simplesmente a necessidade do negócio — colocou você à frente de uma equipe. De repente, não é mais sobre o que você faz, mas sobre o que as pessoas ao seu redor conseguem fazer junto com você. Essa transição — de colaborador para gestor — é uma das mais desafiadoras e mal preparadas da vida profissional.
Pesquisa publicada pela Harvard Business Review revelou que a maioria das pessoas assume seu primeiro cargo de liderança sem nenhum treinamento formal. O resultado é um ciclo de insegurança, microgestão e frustração — tanto para o novo gestor quanto para sua equipe. Mas há um caminho diferente.

Quando alguém se destaca tecnicamente, costuma ser promovido para gerir a equipe. O problema é que a habilidade que o levou até ali — fazer muito bem determinada tarefa — não é a habilidade que vai sustentá-lo na liderança. A armadilha clássica é continuar “colocando a mão na massa” em tudo, sem delegar, sem criar espaço para que a equipe cresça.
A professora Linda Hill, da Harvard Business School, estudou por anos gestores em seu primeiro ano de liderança e identificou que a maioria enfrenta o mesmo choque: perceber que influenciar pessoas é radicalmente diferente de executar tarefas. A autoridade formal existe no papel, mas a autoridade real precisa ser construída — com confiança, consistência e escuta.
A ciência da liderança aponta alguns comportamentos que distinguem gestores iniciantes que evoluem dos que ficam presos no caos. Não se trata de técnicas milagrosas, mas de práticas que, aplicadas com consistência, criam um ambiente de trabalho mais saudável e produtivo para todos.
Uma das principais fontes de conflito em equipes é a ambiguidade: cada pessoa entende sua função de um jeito diferente. Seu papel como gestor é criar clareza — sobre objetivos, sobre o que é prioridade, sobre como o trabalho será avaliado. Isso não significa rigidez, mas transparência. Um estudo da Gallup mostrou que colaboradores que compreendem claramente o que se espera deles têm desempenho significativamente superior e relatam maior bem-estar no trabalho.
Gestores iniciantes frequentemente sentem que precisam ter respostas para tudo. Essa pressão é compreensível, mas pode ser contraproducente. Pesquisa da consultoria Zenger/Folkman, que avaliou mais de 3.400 líderes, mostrou que a habilidade de escuta é um dos maiores diferenciadores entre gestores avaliados como medianos e os reconhecidos como excelentes. Antes de implementar mudanças, converse individualmente com cada membro da equipe. Entenda o que está funcionando, o que trava o trabalho e o que cada pessoa precisa para crescer.
Liderar é uma atividade emocionalmente intensa. Você vai lidar com conflitos, frustrações, cobranças de cima e de baixo — muitas vezes ao mesmo tempo. A inteligência emocional, conceito desenvolvido pelo psicólogo Daniel Goleman, é uma das competências mais estudadas na liderança eficaz. Em sua pesquisa com executivos de grandes empresas, Goleman concluiu que a inteligência emocional responde por cerca de 90% do que diferencia líderes de alto desempenho dos demais. Isso não significa suprimir emoções, mas aprender a reconhecê-las, nomeá-las e escolher como reagir — especialmente sob pressão.

“Será que eu mereço estar aqui?” Essa pergunta acompanha a maioria dos novos gestores, independentemente da experiência acumulada. A síndrome do impostor — termo criado pelas psicólogas Pauline Clance e Suzanne Imes nos anos 1970 — descreve exatamente essa sensação de ser uma fraude, de que qualquer erro vai expor sua incompetência. Ela é mais comum entre profissionais de alto desempenho do que se imagina.
O caminho não é fingir que a insegurança não existe, mas aprender a agir apesar dela. Gestores que assumem publicamente que ainda estão aprendendo, que fazem perguntas sem medo de parecer menos competentes, constroem culturas psicologicamente mais seguras. E times psicologicamente seguros inovam mais e erram menos — como demonstrou o Projeto Aristóteles, pesquisa interna do Google sobre o que torna equipes eficazes.
Dar feedback é uma das habilidades que mais assusta novos gestores — e também uma das mais transformadoras. Feedback eficaz não é sobre apontar erros, mas sobre criar condições para que a pessoa evolua. A estrutura SBI (Situação, Comportamento, Impacto), desenvolvida pelo Center for Creative Leadership, é um dos modelos mais aplicados por sua objetividade: você descreve a situação específica, o comportamento observado e o impacto que ele gerou — sem julgamentos, sem generalizações.
Igualmente importante é saber pedir feedback sobre a sua própria gestão. Isso requer humildade e segurança — e é exatamente o tipo de comportamento que constrói confiança em uma equipe.

Nenhum gestor começa pronto. Os melhores líderes que existem carregam histórias de erros, de equipes que frustraram, de decisões que precisaram ser refeitas. O que os distingue não é a ausência de tropeços, mas a capacidade de aprender com eles sem se destruir no processo.
Se você está assumindo sua primeira liderança, lembre-se: seu time não espera perfeição. Espera presença, clareza e respeito. E isso, com intencionalidade, você pode oferecer desde o primeiro dia.