Com a inteligência artificial absorvendo boa parte da execução, o que separa currículos parecidos são competências humanas — e todas elas podem ser treinadas
25/07/2026
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Em fevereiro de 2026, o LinkedIn divulgou a edição brasileira do levantamento Habilidades em Alta, que mede anualmente quais competências mais crescem entre os perfis da rede e entre os profissionais efetivamente contratados no país. Ao lado de modelos de linguagem, integração de sistemas e segurança digital, apareceram itens de outra natureza: escuta ativa, pensamento sistêmico, liderança estratégica e resolução colaborativa de problemas. O estudo mapeou dez áreas, de vendas a serviços de saúde, e chegou a uma leitura transversal: as funções ficaram mais híbridas, e o domínio técnico isolado deixou de sustentar uma carreira.
O Fórum Econômico Mundial chega a diagnóstico semelhante por outro caminho. O Future of Jobs Report 2025, construído a partir das respostas de mais de mil grandes empregadores que representam 14 milhões de trabalhadores em 55 economias, projeta que 39% das habilidades hoje consideradas essenciais terão mudado até 2030. É um número alto, mas menor que os 44% estimados na edição de 2023 — indício de que programas de requalificação começaram a encurtar a distância entre o que as empresas pedem e o que os profissionais oferecem.

A tendência é anterior à onda atual de automação. O economista David Deming, da Universidade Harvard, publicou no Quarterly Journal of Economics, em 2017, uma análise do mercado de trabalho americano entre 1980 e 2012. Ocupações que exigem alto grau de interação social cresceram quase 12 pontos percentuais como fatia da força de trabalho no período. Já as funções intensivas em matemática, mas com pouca demanda social, encolheram 3,3 pontos. Os melhores resultados de emprego e salário ficaram justamente com quem reunia as duas exigências.
O modelo proposto por Deming ajuda a entender o porquê: dentro de um time, as pessoas trocam tarefas entre si para aproveitar suas vantagens comparativas, e essa troca tem um custo de coordenação. Quem reduz esse custo — explicando bem, ouvindo antes de responder, negociando prioridades sem desgaste — vira uma peça difícil de substituir. Quando parte da execução passa a ser automatizada, o valor migra para quem coordena, interpreta e decide.
Curiosidade e aprendizado contínuo estão entre as dez habilidades em maior ascensão no relatório do Fórum Econômico Mundial. Na prática, não se trata de acumular cursos, e sim de desaprender rápido: reconhecer quando um método que funcionava parou de funcionar e adotar outro sem travar. É uma competência observável — dá para medir quanto tempo você leva entre saber que precisa mudar e efetivamente mudar.
Escuta ativa aparece explicitamente entre as competências comportamentais em alta no Brasil. O teste é simples: você consegue explicar um assunto técnico da sua área para alguém de fora e ser compreendido na primeira tentativa? E consegue repetir, com suas palavras, o argumento de quem discorda de você antes de rebatê-lo? Quem faz as duas coisas reduz retrabalho e conflito em qualquer equipe.
Uma meta-análise publicada no Journal of Organizational Behavior por O’Boyle e colaboradores, em 2011, reuniu dezenas de estudos e encontrou relação positiva consistente entre inteligência emocional e desempenho no trabalho. O achado mais relevante é outro: essa relação se mantinha mesmo depois de descontados os efeitos da capacidade cognitiva e dos traços de personalidade. Ou seja, ela acrescenta algo que o QI e o perfil comportamental não explicam sozinhos.
Quando produzir um relatório, um código ou uma proposta deixa de ser o gargalo, o gargalo vira decidir se aquilo está certo. Avaliar a origem de um dado, identificar o que uma análise deixou de fora e conectar o resultado ao contexto do negócio são tarefas que continuam humanas. Vale menos gerar mais respostas e mais formular perguntas melhores.
A pesquisadora Amy Edmondson, da Harvard Business School, publicou em 1999, na Administrative Science Quarterly, um estudo que virou referência: em equipes hospitalares, as unidades de melhor desempenho eram as que registravam mais erros. Não porque errassem mais, mas porque as pessoas se sentiam seguras para admitir falhas e corrigi-las cedo. Contribuir para esse clima — reconhecer o próprio erro, receber o do outro sem punir — é uma habilidade de carreira, não apenas de liderança.

Marque apenas as afirmações que você consegue comprovar com um exemplo concreto dos últimos 12 meses:
( ) Expliquei um tema técnico da minha área para alguém de fora e fui compreendido.
( ) Recebi um feedback difícil sem me defender de imediato.
( ) Mudei de opinião diante de um dado novo, publicamente.
( ) Aprendi uma ferramenta nova por conta própria e a apliquei no trabalho.
( ) Mediei um desalinhamento entre duas pessoas ou duas áreas.
( ) Admiti um erro antes que alguém o descobrisse.
Menos de três marcações? Escolha uma única competência e trate-a como o projeto do seu semestre.
O erro mais comum é tentar desenvolver seis competências ao mesmo tempo e não avançar em nenhuma. Escolha duas, no máximo, e ancore cada uma em uma situação real que já existe na sua rotina.

Segundo a pesquisa do LinkedIn, um em cada cinco profissionais no mundo afirma que a falta de qualificação adequada dificulta sua busca por emprego. Boa parte dessa lacuna não está em ferramentas, e sim em comportamentos que se desenvolvem no exercício comum do trabalho — na próxima reunião, no próximo feedback, no próximo conflito de prioridades.
Você não precisa de um plano de dois anos para começar. Precisa de uma competência escolhida, uma situação recorrente onde praticá-la e alguém disposto a lhe dizer a verdade sobre o resultado. O restante é repetição — e ela é mais acessível do que qualquer certificado.