Muito além do tanquinho, a musculatura do tronco protege a coluna, leva a força das pernas aos braços e sustenta o equilíbrio — e a pesquisa já mostra como treiná-la bem.
20/10/2026
Gostou da publicação? Compartilhe e de uma força para o Leveza!
Quando se fala em abdômen, a imagem que costuma aparecer primeiro é a do tanquinho. Os músculos que desenham esse visual, porém, são só a camada mais superficial de um sistema muito maior, que trabalha o dia inteiro: quando você levanta uma sacola do chão, sobe uma escada ou carrega uma criança no colo. Esse sistema é o core, e entender como ele funciona muda bastante a maneira de treiná-lo.
Os médicos Venu Akuthota e Scott Nadler, em revisão publicada em 2004 no Archives of Physical Medicine and Rehabilitation, propuseram uma imagem útil: o core funciona como uma caixa. Os abdominais formam a parede da frente; os músculos paravertebrais e os glúteos, a parede de trás; o diafragma é o teto; e o assoalho pélvico, junto com a musculatura do quadril, faz o papel de piso.
O reto abdominal, responsável pelo tanquinho, é apenas uma das peças. Em camadas mais profundas atuam o transverso do abdômen, que envolve a cintura como uma cinta, e os multífidos, pequenos músculos que ligam uma vértebra à outra. Quando esse conjunto se contrai de forma coordenada, a pressão dentro do abdômen sobe e o tronco ganha rigidez, como uma garrafa plástica tampada, que resiste ao aperto muito melhor do que aberta.

Um dos estudos mais citados nessa área foi conduzido pelos fisioterapeutas australianos Paul Hodges e Carolyn Richardson e publicado na revista Spine em 1996. Eles registraram a atividade muscular de voluntários enquanto moviam o braço rapidamente. Nas pessoas sem dor, o transverso do abdômen era ativado uma fração de segundo antes do músculo do ombro, como se o corpo firmasse a base antes de mexer a ponta. Nos participantes com dor lombar crônica, essa ativação chegava atrasada.
A mesma lógica aparece no esporte. Em revisão publicada na Sports Medicine em 2006, o médico W. Ben Kibler e colegas descrevem o core como o elo central da cadeia cinética: é por ele que a força produzida pelas pernas chega aos braços em um arremesso, um saque ou um soco. Quando o tronco cede no meio do caminho, parte dessa energia se perde, e ombros, cotovelos e lombar passam a compensar.

O biomecânico canadense Stuart McGill, da Universidade de Waterloo, passou décadas medindo a carga que cada exercício impõe à coluna. Em estudo de 1997 com Christopher Axler, publicado na Medicine & Science in Sports & Exercise, abdominais tradicionais com flexão completa do tronco geraram compressões lombares acima de 3 mil newtons, perto do limite de ação de 3.400 newtons usado pelo Instituto Nacional de Segurança e Saúde Ocupacional dos Estados Unidos (NIOSH) para avaliar risco no trabalho.
A partir desses dados, McGill propôs um trio de exercícios que desafia o tronco com pouca sobrecarga na coluna: o abdominal curto modificado (curl-up, com uma das pernas flexionadas e as mãos sob a lombar), a prancha lateral e o bird dog, feito em quatro apoios estendendo braço e perna opostos. A prioridade é a resistência e o controle, com sustentações curtas e repetidas, e não a força máxima.
Há também quem aponte os limites do conceito. O osteopata Eyal Lederman, em artigo de 2010 no Journal of Bodywork and Movement Therapies intitulado “The myth of core stability”, argumenta que o corpo saudável já recruta a musculatura profunda nas tarefas comuns, sem precisar de treino isolado. As duas visões se completam: exercícios específicos ajudam, e agachamentos, levantamentos e carregamentos de peso (caminhar com halteres pesados ao lado do corpo, por exemplo) também exigem muito do core.
Na prancha frontal, é frequente ver o quadril descer em direção ao chão e a lombar afundar, formando uma curva acentuada nas costas. Isso costuma acontecer quando a pessoa insiste em sustentar a posição por minutos seguidos: com o cansaço, o abdômen relaxa e o peso vai para as articulações da coluna.
Nessa posição, o exercício perde o propósito. Em vez de ensinar o tronco a resistir ao movimento, ele ensina a lombar a ceder sob carga.
Como corrigir: apoie os antebraços logo abaixo dos ombros, contraia os glúteos e aproxime levemente as costelas da pelve, como se fosse receber um empurrão na barriga. Mantenha uma linha reta da cabeça aos calcanhares, respirando sem soltar a contração. Prefira sustentações de 10 segundos, repetidas algumas vezes, a uma série longa em que a técnica se desfaz.

Você não precisa de academia nem de equipamento. Reserve cerca de dez minutos, três vezes por semana, para os três exercícios de McGill. Faça sustentações de 8 a 10 segundos, com descanso curto entre elas, e reduza o número de repetições a cada série, por exemplo, 6, 4 e 2. Encerre a série no momento em que a lombar afundar ou o quadril girar. Depois, acrescente carregamentos e movimentos de corpo inteiro.
Se você tem dor lombar persistente, diástase abdominal ou passou recentemente por uma gestação, converse antes com um fisioterapeuta para ajustar exercícios e cargas ao seu caso. Se o tanquinho aparecer pelo caminho, ótimo. O que você vai notar primeiro, porém, é a firmeza ao tirar a mala do bagageiro ou ao passar horas sentado sem que a lombar reclame.