Uma receita de quinze minutos, agridoce e crocante, e a história de um ingrediente que atravessou séculos da medicina persa até chegar aos laboratórios de hoje.
30/10/2026
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[Sassy_Social_Share]Corte uma romã ao meio e você encontra algo raro na cozinha: centenas de sementes envoltas em polpa translúcida, cada uma com um pequeno estouro de suco ácido e adocicado. Os persas chamam a fruta de anar e a cultivam há milênios no planalto iraniano. Nesta sexta, a romã protagoniza uma salada simples de montar, com resultado de restaurante, e, depois do prato, uma conversa sobre por que tantas culturas a associaram à longevidade.
Rendimento: 4 porções como entrada ou 2 como prato principal leve. Tempo de preparo: 15 minutos.

A salada se apoia num equilíbrio clássico de contrastes. O amargor picante da rúcula é suavizado pelo ácido-doce da romã; a feta entra com sal e cremosidade; as nozes trazem gordura e crocância, que prolongam a saciedade. O melaço de romã, chamado de rob-e anar no Irã, reforça o sabor da fruta e aparece em pratos tradicionais como o fesenjan, um ensopado persa de nozes e romã.
Há também uma vantagem nutricional discreta. Segundo a base FoodData Central, do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), 100 g de sementes de romã fornecem cerca de 4 g de fibras e aproximadamente 10 mg de vitamina C. Essa vitamina favorece a absorção do ferro de origem vegetal presente em folhas verde-escuras como a rúcula.
Muito antes de ganhar fama como superalimento, a romã já ocupava lugar de destaque nos tratados médicos do mundo persa. No Cânone da Medicina, concluído por volta de 1025, o médico e filósofo Avicena (Ibn Sina) descreve a fruta distinguindo variedades doces, azedas e agridoces e associando-as sobretudo ao cuidado com o estômago e a digestão.
A lógica da medicina tradicional persa era diferente da atual. Cada alimento recebia um temperamento, que combinava as qualidades quente ou frio e úmido ou seco, e a dieta era ajustada para equilibrar a constituição de cada pessoa. A romã azeda, por exemplo, era considerada refrescante, própria para os dias quentes.
O valor simbólico era tão grande quanto o medicinal. Na tradição zoroastriana, a romã representava fertilidade e continuidade da vida, por causa da abundância de sementes. Até hoje, na Shab-e Yalda, a noite mais longa do ano, celebrada no solstício de inverno, famílias iranianas se reúnem em torno de romãs e melancias, num costume associado à proteção da saúde durante o frio. O próprio nome da fruta guarda essa história: romã vem do árabe rummān, e o nome científico, Punica granatum, remete aos fenícios, e aos muitos grãos que ela carrega.

Parte do interesse moderno pela romã vem de seus polifenóis, em especial as punicalaginas. Um estudo publicado em 2000 no Journal of Agricultural and Food Chemistry mediu a atividade antioxidante do suco de romã e encontrou valores cerca de três vezes superiores aos do vinho tinto e do chá-verde.
A pesquisa mais intrigante, porém, envolve o intestino. Ao chegar ao cólon, os elagitaninos da romã são transformados pelas bactérias intestinais em compostos chamados urolitinas. Em 2016, um grupo da Escola Politécnica Federal de Lausanne (EPFL), na Suíça, mostrou na revista Nature Medicine que a urolitina A estimula a mitofagia, o processo de reciclagem das mitocôndrias danificadas, e prolongou a vida de vermes C. elegans, além de melhorar a função muscular em roedores. Em 2019, um ensaio clínico publicado na Nature Metabolism indicou que a substância é segura em idosos e melhora marcadores de saúde mitocondrial.
Há ressalvas importantes. Nem todo mundo produz urolitina A na mesma quantidade: pesquisas do grupo de Francisco Tomás-Barberán, do centro espanhol CEBAS-CSIC, mostram que essa conversão depende da composição da microbiota e varia bastante de pessoa para pessoa. Além disso, os estudos clínicos com o suco, como o acompanhamento de pacientes com estenose de carótida publicado em 2004 na Clinical Nutrition, ainda envolvem poucos participantes. A romã é um alimento valioso dentro de uma dieta variada, não um tratamento.
Na hora da compra, escolha romãs pesadas para o tamanho, de casca firme e sem rachaduras. Inteiras, elas se conservam por várias semanas na geladeira; as sementes debulhadas duram cerca de cinco dias em pote fechado. Assim, a salada desta sexta vira ponto de partida: as sementes que sobrarem vão bem no iogurte do café da manhã ou sobre um homus. A tradição persa levou séculos para construir a reputação da romã; na sua cozinha, basta uma tigela e uma colher de pau para colocá-la à prova.