A neurociência explica como o tédio estimula criatividade, reflexão e descanso mental profundo
1/01/2026
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Você já se sentiu desconfortável com a ausência de estímulos? Em uma fila de banco, na sala de espera do médico ou durante uma viagem de carro, o impulso de pegar o celular é quase automático. A cultura da hiperconectividade nos treinou para preencher cada segundo vago com informações, entretenimento ou interações. No entanto, a ciência aponta que, ao evitar o tédio, podemos estar sabotando uma das mais poderosas fontes de criatividade, bem-estar e autoconhecimento: o descanso mental.
Por muito tempo, o devaneio foi visto como um sinal de desatenção ou preguiça. Hoje, a neurociência revela um cenário completamente diferente. Quando nossa mente não está focada em uma tarefa externa específica, ela ativa uma rede de regiões cerebrais conhecida como Default Mode Network (DMN), ou rede de modo padrão. Essa rede é o centro nevrálgico do nosso mundo interno, responsável por atividades como recordar memórias, imaginar o futuro e, crucialmente, pensar de forma criativa.
Um estudo inovador publicado na revista Brain em 2025, liderado pelo neurocirurgião Ben Shofty, demonstrou pela primeira vez uma ligação causal entre a DMN e a criatividade. Utilizando eletrodos intracranianos, os pesquisadores observaram que a DMN se tornava altamente ativa durante tarefas que exigiam pensamento divergente, como encontrar usos alternativos para objetos do cotidiano. Quando a atividade dessa rede era interrompida por estimulação elétrica, a originalidade das respostas dos participantes diminuía significativamente. Isso sugere que permitir que a mente vagueie não é uma falha de concentração, mas um ingrediente essencial para a geração de ideias inovadoras.

O tédio, aquela sensação de inquietação que surge quando não conseguimos engajar nossa mente, funciona como um gatilho para a ativação da DMN. Em vez de ser um estado a ser evitado a todo custo, ele é um convite para que o cérebro processe informações, consolide memórias e explore novas conexões. Segundo a Mayo Clinic Health System, é nesse estado de “descanso” que o cérebro reflete sobre lições aprendidas e simula cenários futuros, um processo fundamental para a resolução de problemas complexos.
O psicólogo Jerome L. Singer chamou esse processo de “devaneio positivo-construtivo”, uma forma lúdica de ociosidade mental que nos permite explorar possibilidades e nutrir sentimentos de esperança e renovação. É o que acontece quando, durante uma caminhada sem música ou um banho demorado, de repente encontramos a solução para um problema que nos assombrava há dias. Ao nos desconectarmos do bombardeio de estímulos externos, damos ao cérebro o espaço necessário para que as sementes de novas ideias possam germinar.

A tecnologia nos oferece um escape constante do tédio. Uma pesquisa revela que 74% dos americanos se sentem desconfortáveis ao sair de casa sem seus celulares, e 47% se consideram “viciados” em seus aparelhos. Esse hábito, no entanto, tem um custo: ao preenchermos cada momento livre, privamos nosso cérebro do tempo de inatividade necessário para a recarga e a criatividade. O resultado paradoxal é que, em vez de nos sentirmos renovados, experimentamos uma fadiga mental crescente.
Resgatar o tédio construtivo não significa abandonar a tecnologia, mas usá-la de forma mais intencional. Trata-se de criar pequenas janelas de tempo sem estímulos ao longo do dia, permitindo que a mente simplesmente exista, sem a pressão de ser produtiva ou entretida.

Integrar o tédio criativo em sua rotina pode ser mais simples do que parece. Comece com pequenas práticas e observe os benefícios para sua saúde mental e produtividade.
• Caminhadas silenciosas: deixe os fones de ouvido em casa e preste atenção ao ambiente ao seu redor. Permita que seus pensamentos fluam livremente, sem um destino certo.
• Momentos de contemplação: reserve alguns minutos do seu dia para sentar-se em silêncio, talvez com uma xícara de chá, e simplesmente observar o que está à sua volta, sem a necessidade de fazer nada.
• Pausas analógicas: entre uma tarefa e outra, em vez de pegar o celular, olhe pela janela, alongue o corpo ou apenas feche os olhos por um instante.
Ao abraçar esses momentos de quietude, você não está apenas combatendo o esgotamento mental, mas também cultivando um terreno fértil para a criatividade, a reflexão e uma conexão mais profunda consigo mesmo. Permita-se o luxo de não fazer nada e descubra o poder que reside no silêncio.