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Radar Leveza: avanços em medicina do sono — o que está mudando no tratamento da insônia

Terapia que desacelera o relógio biológico, remédios que bloqueiam a vigília em vez de sedar e aplicativos com eficácia comprovada: o que a ciência de 2026 trouxe para quem dorme mal.

4/10/2026

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A medicina do sono está mudando a forma de tratar a insônia. Neste Radar, reunimos os principais avanços de 2026: um estudo da UCLA associou a terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I) a um envelhecimento biológico mais lento em idosos; uma meta-análise na revista Sleep comparou os novos remédios que bloqueiam a orexina; pesquisadores de Maryland mostraram a importância de medir o funcionamento diurno; e um aplicativo alemão de TCC-I levou quase metade dos usuários à remissão. Explicamos também a situação desses tratamentos no Brasil e o que muda, na prática, para quem dorme mal.

Durante décadas, o caminho mais comum para quem chegava ao consultório com insônia era curto: a queixa, uma receita de hipnótico e o retorno meses depois. Esse roteiro vem sendo reescrito, e 2026 acelerou a mudança. Estudos publicados ao longo do ano reforçam três movimentos na medicina do sono: a terapia cognitivo-comportamental ganhou evidências que vão além da noite bem dormida, uma nova classe de remédios passou a agir sobre o sistema que mantém o cérebro acordado, e os pesquisadores começaram a medir o sucesso do tratamento também pelo que acontece durante o dia.

O tema tem peso no Brasil. No Estudo Epidemiológico do Sono de São Paulo (Episono), conduzido pela Universidade Federal de São Paulo, cerca de 15% dos adultos avaliados preenchiam critérios para o transtorno de insônia, e uma parcela bem maior relatava queixas frequentes de sono. A seguir, as principais notícias do período, cada uma em três níveis de leitura.

1. Terapia para insônia pode desacelerar o envelhecimento biológico

Essencial

Em adultos com 60 anos ou mais, oito semanas de terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I) quase triplicaram a chance de remissão do problema e foram associadas a um ritmo mais lento de envelhecimento biológico, medido no DNA.

Contexto

O estudo, conduzido pela UCLA Health e publicado em 2026 na revista The Lancet Healthy Longevity, é uma análise secundária de um ensaio clínico randomizado com cerca de cem idosos com insônia. Parte deles recebeu TCC-I, que trabalha hábitos, horários e pensamentos que alimentam a vigília noturna; os demais participaram de sessões de educação sobre sono, usadas como grupo de comparação. Amostras de sangue coletadas antes do tratamento e ao longo de dois anos foram analisadas com relógios epigenéticos, ferramentas que estimam a idade biológica a partir de marcas químicas no DNA. No grupo da TCC-I, o ritmo de envelhecimento estimado pelo relógio DunedinPACE diminuiu; no grupo de comparação, aumentou.

Segundo o comunicado divulgado pela universidade, a autora principal, a professora de psiquiatria Judith Carroll, observa que a insônia em idosos costuma ser tratada como uma questão de qualidade de vida, mas os achados sugerem que ela pode ser também um fator de risco modificável para o modo como o corpo envelhece. Os próprios autores apontam os limites: o estudo foi feito em um único centro, com pouca diversidade de idade, etnia e raça, e precisa ser confirmado em pesquisas maiores.

Perspectiva Leveza

O resultado não transforma a terapia em tratamento antienvelhecimento. O que ele acrescenta é mais um argumento para levar a insônia persistente a sério, sobretudo depois dos 60 anos, e para priorizar a abordagem que diretrizes nacionais e internacionais já apontam como primeira linha. Diferentemente do remédio, os ganhos da TCC-I tendem a permanecer depois que o tratamento termina.

2. Antagonistas de orexina ganham espaço, com ressalvas

Essencial

Uma revisão sistemática com meta-análise que reuniu mais de 2.200 idosos tratados indicou que os antagonistas duplos dos receptores de orexina melhoram o sono nessa população, com diferenças relevantes de segurança entre as moléculas.

Contexto

A orexina, também chamada de hipocretina, é um neurotransmissor que mantém o cérebro em estado de alerta. Em vez de sedar o sistema nervoso, como fazem os benzodiazepínicos e as chamadas drogas Z (grupo do zolpidem), esses medicamentos bloqueiam o sinal de vigília. A revisão, publicada em 2026 na revista Sleep por pesquisadores italianos liderados por Eleonora Rollo, analisou ensaios com pessoas de 65 anos ou mais. O daridorexante reduziu o tempo acordado após o início do sono em 13 a 21 minutos no primeiro mês, aumentou o tempo total de sono percebido em cerca de 20 minutos e não elevou a taxa de eventos adversos em relação ao placebo. O lemborexante mostrou ganhos numericamente maiores, de até 38 minutos a mais de sono, mas com mais efeitos adversos, ainda que nenhum grave. Para o suvorexante, a melhora apareceu sobretudo após três meses de uso.

No Brasil, a Anvisa aprovou o lemborexante em setembro de 2025, apenas para adultos, com a comercialização dependente da definição de preço pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED). O daridorexante ainda aguarda avaliação da agência, e a previsão divulgada pela farmacêutica EMS, parceira da suíça Idorsia, é de chegada ao mercado em 2027. O movimento ocorre depois de a Anvisa endurecer, em 2024, as regras de prescrição do zolpidem, diante do aumento do consumo e de relatos de uso abusivo.

Perspectiva Leveza

Mais opções são uma boa notícia, principalmente para idosos, grupo em que sedativos antigos aumentam o risco de quedas e de confusão mental. Mas novo não é sinônimo de inofensivo: sonolência residual, dor de cabeça e sonhos intensos estão entre os efeitos relatados, e os ganhos, medidos em minutos, são modestos. O remédio pode funcionar como apoio em fases específicas, sempre com indicação médica, e rende mais quando caminha junto com mudanças de comportamento.

3. Dormir melhor não basta: o dia seguinte entra na conta

Essencial

Pesquisadores da Universidade de Maryland mostraram que avaliações feitas pelo celular ao longo do dia captam efeitos do tratamento da insônia que os questionários tradicionais deixam passar.

Contexto

No estudo, publicado na JAMA Network Open, 40 pessoas de 60 a 85 anos com insônia crônica usaram suvorexante ou placebo por 16 noites e responderam a breves avaliações no smartphone em diferentes momentos do dia, com taxa de adesão de 93,3%. O método revelou padrões de fadiga e diferenças de desempenho cognitivo ao longo do dia que escapavam às escalas aplicadas em consulta. Emerson Wickwire, chefe da seção de medicina do sono do Centro Médico da Universidade de Maryland e autor do trabalho, resume a mensagem no comunicado da instituição: melhorar o sono não é suficiente, é preciso verificar se o tratamento melhora o funcionamento diurno, que é o que os pacientes dizem importar mais.

Perspectiva Leveza

A insônia costuma ser descrita pela noite, mas é sentida durante o dia, na irritação, no cansaço e na dificuldade de concentração. Ao acompanhar um tratamento, observe também como você está no meio da manhã e no fim da tarde, e não apenas quantas horas dormiu.

4. TCC-I no celular: eficácia comprovada, acesso ainda restrito

Essencial

Um ensaio clínico randomizado na Alemanha mostrou que um curso de TCC-I em aplicativo levou 48% dos participantes à remissão da insônia, contra 18% do grupo que aguardava tratamento.

Contexto

Publicado no Journal of Sleep Research, o estudo acompanhou 263 pessoas por 12 semanas. A gravidade da insônia, medida pelo Índice de Gravidade da Insônia, caiu em média 4,8 pontos, a eficiência do sono (a proporção do tempo na cama efetivamente dormida) subiu de 83,7% para 87,8%, e os ganhos se mantiveram três meses depois. O resultado se soma a um cenário que já mudou nos Estados Unidos, onde a FDA liberou em 2024 o SleepioRx, aplicativo de TCC-I que pode ser prescrito por médicos. No Brasil, a diretriz para diagnóstico e tratamento da insônia em adultos publicada em 2023 com o apoio da Associação Brasileira do Sono também coloca a TCC-I como tratamento de primeira escolha, mas o número de profissionais treinados ainda é pequeno diante da demanda.

Perspectiva Leveza

Versões digitais não substituem a avaliação de um especialista em casos complexos, como insônia associada a depressão, apneia ou dor crônica. Para quem não tem acesso a um terapeuta do sono, porém, podem ser uma porta de entrada séria, desde que o programa seja baseado nos componentes da TCC-I (restrição do tempo na cama, controle de estímulos e reestruturação de pensamentos) e não apenas em sons relaxantes.

Termômetro da Semana

Clima geral: otimista com cautela (4 de 5).

  • TCC-I e envelhecimento biológico — Animador: benefício que vai além do sono, ainda à espera de confirmação em estudos maiores.
  • Antagonistas de orexina em idosos — Promissor, com ressalvas: ganhos modestos e segurança que varia entre as moléculas.
  • Funcionamento diurno como medida de sucesso — Animador: aproxima a pesquisa daquilo que o paciente sente.
  • TCC-I digital — Animador: eficácia consistente em ensaios clínicos.
  • Acesso ao tratamento no Brasil — Atenção: poucos profissionais treinados em TCC-I e novos remédios ainda sem preço ou aprovação.

O que isso significa para você?

  • Insônia que aparece três ou mais noites por semana, há três meses ou mais, e prejudica o seu dia merece avaliação profissional, e não apenas chá e paciência.
  • Pergunte sobre TCC-I antes da receita ou junto com ela. É o tratamento com evidências mais sólidas e efeitos mais duradouros.
  • Se você usa remédio para dormir há muito tempo, não interrompa por conta própria. A retirada deve ser gradual e acompanhada.
  • Os novos medicamentos são uma alternativa a discutir com o médico, especialmente depois dos 65 anos, mas também têm efeitos colaterais.
  • Registre por duas semanas como você dorme e como se sente durante o dia. Esse diário ajuda no diagnóstico e mostra se o tratamento está funcionando.

Enquete da semana

Quando o sono não vem, qual é a sua primeira reação?

  • Fico na cama esperando o sono voltar
  • Pego o celular
  • Levanto e faço algo tranquilo até o sono chegar
  • Recorro a chá ou remédio

Insônia tem tratamento, e ele começa pela conversa certa

O retrato que sai deste Radar é o de uma medicina do sono menos dependente de sedativos e mais atenta ao comportamento, ao funcionamento diurno e à saúde a longo prazo. Para quem passa as noites olhando para o teto, a mudança prática é clara: há opções melhores do que as de dez anos atrás, e quase todas passam por uma boa avaliação. Leve o seu diário de sono à próxima consulta e pergunte explicitamente sobre terapia cognitivo-comportamental. É uma conversa que pode mudar também os seus dias.

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CARROLL, Judith E. et al. Cognitive behavioural therapy for insomnia and epigenetic ageing: secondary analysis from a randomised controlled trial. The Lancet Healthy Longevity, 2026. UCLA HEALTH. Cognitive behavioral therapy may reduce biological aging among older adults with insomnia. EurekAlert!, 8 set. 2026. ROLLO, E.; ANTONIONI, A.; MANZOLI, L.; DI LORENZO, F.; FLACCO, M. E. Treatment of chronic insomnia in elderly adults with dual orexin receptor antagonists: a systematic review and meta-analysis. Sleep, 2026. doi:10.1093/sleep/zsag135. WICKWIRE, E. M. et al. Estudo publicado na JAMA Network Open (2026) sobre avaliação por smartphone do funcionamento diurno em idosos com insônia. Divulgado pela University of Maryland School of Medicine, 8 jan. 2026. KATER, M.-J.; WEGENER, N.; MORATH, N.; VORSTER, A. Digital App Based Cognitive Behaviour Therapy CBT-I Course Improving Insomnia and Sleep Hygiene: A Randomised Controlled Trial. Journal of Sleep Research, 2026. doi:10.1111/jsr.70195. AMERICAN ACADEMY OF SLEEP MEDICINE. FDA clears SleepioRx for chronic insomnia. AASM, 2024. CONSELHO FEDERAL DE FARMÁCIA. Novo medicamento contra a insônia aprovado pela Anvisa promete menor risco de dependência. CFF, 16 set. 2025. DIÁRIO DO COMÉRCIO. Adeus, Zolpidem: remédio favorito dos europeus para tratar a insônia chega ao Brasil em 2027. 3 fev. 2026. DRAGER, L. F. et al. Brazilian guideline for the diagnosis and treatment of insomnia in adults – 2023. Sleep Science, v. 16, n. 4, 2023. CASTRO, L. S. et al. Objective prevalence of insomnia in the São Paulo, Brazil epidemiologic sleep study. Annals of Neurology, v. 74, n. 4, 2013. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Alteração do controle de prescrição do zolpidem. Brasília: Anvisa, 2024.