Como pequenas mudanças de percepção podem transformar sua rotina e trazer mais bem-estar e felicidade para o seu dia a dia.
15/11/2025
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Eu costumava viver no piloto automático. Meus dias eram uma sucessão de tarefas, compromissos e obrigações, e eu mal notava o que acontecia ao meu redor. A beleza, para mim, estava reservada para as grandes ocasiões: uma viagem especial, uma festa, um evento extraordinário. O cotidiano era apenas… comum. Cinzento. Até que um dia, em meio ao caos de uma semana particularmente estressante, algo mudou. Comecei a questionar se a vida era apenas aquilo, uma corrida sem fim em busca de momentos espetaculares, enquanto a maior parte do tempo era gasta em um estado de apatia.
Foi então que decidi, intencionalmente, buscar a beleza nas pequenas coisas. Comecei a prestar atenção aos detalhes que antes passavam despercebidos: o desenho que o sol formava na parede ao entrar pela janela, o som da chuva batendo no telhado, o sorriso de um estranho na rua. E, para minha surpresa, descobri um universo de maravilhas escondido na simplicidade do dia a dia. Essa mudança de perspectiva não apenas tornou meus dias mais leves e coloridos, mas também me trouxe uma sensação de paz e contentamento que eu não encontrava nos grandes eventos.

O que eu não sabia na época é que essa prática, de buscar e apreciar a beleza no cotidiano, tem um profundo embasamento científico. A psicologia positiva, um campo de estudo que se dedica a compreender o que faz a vida valer a pena, tem demonstrado consistentemente os benefícios de cultivar a apreciação da beleza e da excelência. Trata-se de uma força de caráter que, segundo a psicanalista Crystiane Faria Feijes, em artigo para o Instituto Bem do Estar, “refere-se à habilidade de encontrar, reconhecer e ter prazer na existência do bom no mundo físico (ambiente) e social (talento e virtude nos outros)”.
Um estudo fascinante conduzido pelo psicólogo Rene Proyer, da Martin Luther University, na Alemanha, investigou os efeitos de uma prática chamada “9 coisas belas”. Os participantes foram instruídos a dedicar 15 minutos por dia, durante uma semana, para escrever sobre três coisas belas que observaram no comportamento humano, na natureza e em geral. Os resultados foram notáveis: os participantes relataram um aumento significativo nos níveis de felicidade e uma redução nos sintomas de depressão, efeitos que se mantiveram por até seis meses após o término do estudo. A chave, segundo Proyer, era incentivar as pessoas a encontrar beleza em suas vidas cotidianas, como em uma árvore florescendo no caminho para o trabalho ou na performance de um artista de rua.

Apreciar a beleza do cotidiano é uma habilidade que pode ser desenvolvida com a prática. Não se trata de ignorar os problemas ou romantizar a realidade, mas sim de equilibrar a balança, permitindo que o belo também tenha espaço em nossa consciência. Shahram Heshmat, Ph.D., em um artigo para a Psychology Today, sugere algumas estratégias para enriquecer nossa experiência estética diária.
Quebre a rotina: introduza pequenas novidades em seu dia. Faça um caminho diferente para o trabalho, ouça uma música nova, experimente um sabor diferente. A novidade desperta nossos sentidos e nos tira do modo automático.
Mantenha o frescor: olhe para as coisas familiares como se fosse a primeira vez. Preste atenção às suas cores, texturas, sons e cheiros. Essa prática de desfamiliarização nos permite redescobrir o extraordinário no ordinário.
Crie ambientes: a beleza muitas vezes reside na atmosfera. Um jantar simples pode se tornar especial com uma mesa bem arrumada, uma música suave e uma boa companhia. A experiência estética é construída pelo conjunto de elementos que nos cercam.
Saboreie com os olhos: a apresentação da comida pode aumentar o prazer da refeição. Dedique um tempo para apreciar a aparência do seu prato antes de começar a comer. Afinal, comemos primeiro com os olhos.

É fácil apreciar a beleza em um dia de sol, em uma paisagem deslumbrante ou em uma obra de arte. O verdadeiro desafio, e talvez a maior recompensa, está em encontrar beleza em meio às adversidades. Crystiane Feijes usa a poderosa metáfora do “lírio no pântano” para ilustrar essa ideia. Mesmo em um ambiente improvável e caótico, uma flor de rara beleza pode desabrochar. Da mesma forma, mesmo nos momentos mais difíceis de nossas vidas, podemos encontrar lampejos de beleza, esperança e resiliência.
Essa capacidade de transcender as dificuldades e focar no belo não é uma negação da dor, mas sim uma afirmação da vida. É reconhecer que, mesmo quando tudo parece sombrio, ainda existe luz. É um ato de coragem e uma poderosa ferramenta de transformação pessoal. Ao aprender a ver o lírio no pântano, desenvolvemos uma força interior que nos ajuda a navegar pelas tempestades da vida com mais serenidade e otimismo.

A jornada para encontrar a beleza no cotidiano é, em essência, uma jornada de autoconhecimento e transformação. É um convite para sairmos do piloto automático e nos conectarmos mais profundamente com o momento presente. Ao fazer isso, não apenas enriquecemos nossa experiência de vida, mas também cultivamos um estado de bem-estar que irradia para todas as áreas de nossa existência.
Comece hoje mesmo. Olhe ao seu redor com atenção. O que você vê? Qual é o seu “lírio no pântano” de hoje? Permita-se ser surpreendido pela beleza que se esconde na simplicidade do seu dia. Você pode descobrir, como eu descobri, que a vida é muito mais rica e maravilhosa do que você imaginava.