Da “memória” das células de gordura ao papel das fibras na absorção de calorias, cinco estudos recentes mostram por que emagrecer e manter o peso depende de muito mais do que força de vontade.
25/10/2026
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Quem já perdeu peso e viu os quilos voltarem meses depois conhece bem a frustração. Por muito tempo, essa recaída foi atribuída quase só à falta de disciplina. As pesquisas publicadas nas últimas semanas apontam em outra direção: hormônios, relógio biológico e até as bactérias do intestino participam ativamente da regulação do peso. Nesta edição do Radar Leveza, cinco estudos ajudam a separar o que já tem aplicação prática do que ainda está restrito ao laboratório.
Um estudo publicado na revista Cell Reports identificou, em camundongos, um mecanismo que mantém elevado um hormônio da fome mesmo depois do emagrecimento, o que ajudaria a explicar o reganho de peso.
A pesquisa, conduzida pelo Harrington Discovery Institute, ligado aos University Hospitals e à Case Western Reserve University, nos Estados Unidos, investigou a asprosina, hormônio produzido pelo tecido adiposo que estimula o apetite. Os cientistas observaram que um sinal inflamatório chamado TGF-β1 aumenta a produção de asprosina nas células de gordura. O detalhe mais intrigante: uma exposição breve a esse sinal deixou uma marca epigenética duradoura, e a asprosina continuou alta por semanas depois que a inflamação havia passado. Nos animais que emagreceram, o apetite seguiu elevado; quando a via da asprosina foi bloqueada, o reganho de peso não aconteceu.
O autor sênior, Atul Chopra, comparou o fenômeno a um interruptor de luz que continua ligado mesmo depois que se tira o dedo dele. Os autores sugerem que esse mecanismo pode explicar parte do reganho observado em quem interrompe os medicamentos da classe GLP-1, que reduzem o apetite sem apagar essa “memória”, mas essa ligação ainda é uma hipótese.
Os resultados vêm de camundongos e ainda precisam ser confirmados em tecido humano. Mesmo assim, reforçam uma ideia que muda a forma de encarar o reganho: o corpo reage ativamente à perda de peso. Saber disso alivia a culpa e desloca a atenção para onde ela deve estar, a fase de manutenção, que merece tanto planejamento quanto a fase de emagrecimento.

Pesquisadores da Weill Cornell Medicine mostraram, em camundongos, que alterar o ritmo diário dos hormônios do estresse provoca ganho de gordura mesmo sem mudança na dieta.
Os glicocorticoides, grupo do qual faz parte o cortisol, seguem um ritmo ao longo do dia: sobem perto do despertar e caem no período de descanso. No estudo, publicado em setembro na Cell Reports e liderado pela pesquisadora Mary Teruel, a equipe “achatou” esse ritmo sem alterar de forma relevante a quantidade média do hormônio. Só essa mudança fez os animais acumularem cerca de 2,5 vezes mais gordura do que o grupo controle, efeito comparável ao da dieta rica em gordura. Com as duas condições combinadas, o ganho foi ainda maior. A resistência à insulina se concentrou nos músculos, e a gordura se acumulou sob a pele e ao redor dos órgãos. Para Teruel, os resultados indicam que é preciso parar de tratar a obesidade como uma condição única.
Em humanos, estudos anteriores já associavam padrões desregulados de cortisol à obesidade e ao acúmulo de gordura abdominal, e sabe-se que estresse crônico, noites mal dormidas e trabalho em turnos alteram esse ritmo. A pesquisa não prova o mesmo efeito em pessoas, mas oferece mais um bom argumento para tratar o sono e a regularidade de horários como parte do cuidado com o peso, e não como detalhe.
Um estudo publicado na Science Advances mostrou que a liraglutida, da mesma classe da semaglutida, reduz os níveis de vasopressina, hormônio que ajuda o corpo a conservar água.
A pesquisa, liderada por Michael Greenwood, da Universidade de Bristol, no Reino Unido, combinou dois experimentos. Em 16 adultos saudáveis, uma única dose de liraglutida diminuiu no sangue a vasopressina e a copeptina, marcador liberado junto com ela, além de aumentar a eliminação de sódio pela urina. Em ratos tratados por 14 dias, a hipófise passou a armazenar menos hormônio, e os rins mostraram menor atividade das aquaporinas, canais responsáveis por reabsorver água. Os animais também passaram a beber mais água em relação à quantidade de comida ingerida.
A parte humana do estudo foi pequena, com dose única e apenas pessoas saudáveis, e ainda não se sabe o que acontece após meses de uso. O achado, porém, chama atenção para um ponto prático: quem usa esses medicamentos costuma comer e beber menos, e a hidratação precisa de cuidado redobrado. Tontura, boca seca ou urina muito escura são sinais que merecem ser relatados ao médico que acompanha o tratamento.

Pessoas que seguiram uma dieta rica em fibras absorveram, em média, cerca de 116 calorias a menos por dia do que as que seguiram uma dieta de padrão ocidental, sem sentir mais fome.
O resultado vem de pesquisadores da Arizona State University, em parceria com o AdventHealth Translational Research Institute, e foi publicado na revista PLOS One. A equipe criou um modelo matemático que integra digestão, absorção e o metabolismo dos micróbios intestinais, testado com dados de um estudo de alimentação controlada. Uma das dietas era rica em fibras, amido resistente e alimentos pouco processados; a outra, mais processada e pobre em fibras. Segundo o modelo, cerca de 15% da energia aproveitada dos alimentos depende do trabalho das bactérias no intestino grosso. A microbiologista Rosa Krajmalnik-Brown, uma das autoras, resume o achado lembrando que a digestão não é um processo apenas humano.
Cento e dezesseis calorias por dia parecem pouco, mas, ao longo de meses, a diferença se acumula. O modelo ainda precisa ser validado em outras populações, e os autores frisam que ele não serve para prescrever dietas individuais. A aplicação prática, por outro lado, já está ao seu alcance: trocar parte dos ultraprocessados por leguminosas, grãos integrais, verduras e frutas com casca beneficia a microbiota e a saciedade.

Um ensaio clínico publicado na revista Obesity Science & Practice indicou que refeições preparadas por nutricionistas ou um aplicativo de mudança de comportamento reduziram o reganho de peso após a interrupção dos medicamentos GLP-1.
O estudo, liderado pela pesquisadora Kelseanna Hollis-Hansen, acompanhou por quatro meses 39 adultos que haviam perdido, em média, pouco mais de 18% do peso com os medicamentos e decidiram parar o tratamento. Um grupo recebeu o cuidado habitual; outro, dez refeições por semana preparadas por nutricionistas; e o terceiro usou um aplicativo voltado aos gatilhos emocionais e sociais da alimentação. O reganho estimado foi de 10,75% no grupo controle, contra cerca de 3,6% nos dois grupos que receberam apoio.
Com uma amostra pequena, formada majoritariamente por mulheres de uma mesma região dos Estados Unidos, o estudo não tem força para conclusões definitivas, e especialistas lembram que manter a medicação continua sendo a estratégia mais eficaz para quem tem indicação. O recado, ainda assim, conversa com a primeira notícia desta edição: se o corpo tende a buscar o peso anterior, interromper o tratamento sem um plano de alimentação e de comportamento é deixar a manutenção ao acaso.
Lidas em conjunto, as cinco pesquisas mostram que o peso é regulado por um sistema que envolve hormônios, ritmos biológicos e microbiota, e não apenas pela conta entre calorias ingeridas e gastas. Algumas atitudes conversam diretamente com esses achados:
O humor das notícias desta edição:
Animador: o estudo sobre fibras e o ensaio sobre manutenção do peso trazem medidas acessíveis e aplicáveis desde já.
Promissor, mas inicial: as descobertas sobre a “memória” das células de gordura e o ritmo do cortisol abrem caminhos para novos tratamentos, mas ainda se restringem a camundongos.
Atenção: o efeito dos medicamentos GLP-1 sobre o equilíbrio de água no corpo pede estudos de longo prazo e cuidado com a hidratação.
Semana de saldo positivo: boa parte das descobertas reforça hábitos que você já pode aplicar.
Qual destes fatores você sente que mais influencia o seu peso hoje?
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Nenhuma dessas descobertas oferece um atalho, e é justamente isso que as torna úteis. Elas dão base científica a hábitos que costumam parecer banais: dormir em horários regulares, comer mais alimentos integrais e tratar a manutenção como uma etapa com plano próprio atuam sobre mecanismos que a ciência começa a mapear com precisão. Na próxima vez que a balança não colaborar, lembre que o seu corpo está respondendo a sinais concretos, e muitos deles você consegue influenciar.