Aprender a estar verdadeiramente presente pode transformar seus vínculos afetivos, fortalecer a saúde mental e resgatar a intimidade. Saiba como aplicar a atenção plena no dia a dia.
20/11/2025
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A sensação de que as conversas são superficiais, que o tempo de qualidade é raro e que a intimidade se perdeu em meio a notificações e telas tornou-se cada vez mais comum. Nunca estivemos tão conectados digitalmente e, ao mesmo tempo, tão distantes uns dos outros em um nível profundo. A boa notícia é que resgatar a qualidade dos nossos vínculos é possível e começa com uma habilidade poderosa: a presença.
Cultivar a presença nada mais é do que direcionar intencionalmente a atenção para o momento atual, sem julgamentos. É uma prática de mindfulness aplicada às interações humanas, que nos convida a ouvir com o coração, observar com empatia e nos conectar de forma autêntica. Quando estamos verdadeiramente presentes com alguém, oferecemos o presente mais valioso que temos: nosso tempo e nossa atenção plena.

Dispositivos móveis, apesar de facilitarem o contato à distância, transformaram-se em importantes obstáculos à conexão genuína no ambiente doméstico. A terapeuta familiar Aline Cantarelli observa, em publicação na Revista Kdea 360, que o acesso constante aos smartphones compromete a qualidade da atenção, da escuta e das trocas afetivas. Segundo ela, a proximidade emocional e física necessária aos relacionamentos íntimos vem sendo gradualmente substituída por uma conexão excessiva com o universo digital externo.
Essa realidade é confirmada por dados: um relatório de 2024 da We Are Social e Meltwater revelou que os brasileiros passam, em média, mais de nove horas por dia na internet. Outra pesquisa, da Mobile Time em parceria com a Opinion Box, mostrou que 81% dos brasileiros admitem usar o celular enquanto estão com seus parceiros. Esses hábitos, aparentemente inofensivos, minam a base de qualquer relacionamento saudável. A simples presença de um smartphone sobre a mesa durante uma conversa pode reduzir os níveis de empatia e a qualidade da conexão, como apontou um estudo da Universidade de Essex, no Reino Unido.
Relacionamentos conturbados ou marcados pela ausência podem aumentar os níveis de estresse e, a longo prazo, contribuir para o desenvolvimento de transtornos como ansiedade e depressão, conforme destaca um artigo da Escola de Medicina e Ciências da Vida da PUCPR. Por outro lado, vínculos fortes e saudáveis funcionam como um poderoso fator de proteção para a saúde mental, promovendo bem-estar e resiliência.

A prática de mindfulness, ou atenção plena, tem se mostrado uma ferramenta eficaz para melhorar a qualidade das relações. Uma revisão sistemática de literatura publicada na SMAD, Revista Eletrônica Saúde Mental Álcool e Drogas, concluiu que níveis mais elevados de mindfulness estão associados a processos de regulação emocional mais adaptativos.
Isso significa que, ao praticar a atenção plena, nos tornamos mais capazes de lidar com nossas emoções de maneira construtiva, em vez de reagir impulsivamente. Essa habilidade é crucial nas interações sociais, pois permite uma comunicação menos reativa e mais empática, mesmo durante conflitos. O estudo reforça que mindfulness contribui diretamente para a saúde mental e o bem-estar pessoal, favorecendo o funcionamento psíquico saudável.

Estar presente em um relacionamento vai além de simplesmente estar no mesmo ambiente. Envolve uma escuta genuína e interessada. O conceito de escuta ativa, desenvolvido pelos psicólogos Carl Rogers e Richard Farson em 1957, propõe um conjunto de técnicas para construir relações mais profundas e positivas.
Escutar ativamente significa ir além das palavras e compreender os sentimentos e as necessidades por trás da mensagem. Conforme detalhado em um artigo da Bradesco Seguros, isso envolve observar a comunicação não-verbal, como o tom de voz e as expressões faciais, e demonstrar interesse e respeito, mesmo que não se concorde com o ponto de vista do outro. Quando alguém se sente verdadeiramente ouvido, a tendência é que se abra com mais clareza e se torne mais receptivo. A escuta ativa, portanto, não apenas melhora a comunicação, mas transforma a própria dinâmica do relacionamento, criando um ciclo virtuoso de empatia e compreensão.

Integrar a presença nos relacionamentos não exige grandes gestos, mas pequenas e consistentes mudanças de hábito. O primeiro passo, como aponta o artigo da PUCPR, é o autoconhecimento. Entender nossas próprias emoções e padrões de comportamento nos ajuda a interagir com os outros de forma mais consciente e menos reativa.
A terapeuta Aline Cantarelli sugere práticas simples para resgatar a conexão no cotidiano. Criar zonas livres de tecnologia é fundamental: estabeleça momentos e locais da casa, como a mesa de jantar ou o quarto, onde os celulares não são permitidos. Dedicar tempo de qualidade também faz diferença: reserve um período do dia, mesmo que curto, para se conectar com seu parceiro ou familiar sem distrações. Uma conversa de 15 minutos com atenção plena pode ser mais valiosa do que horas de convivência dispersa.
Praticar a escuta ativa é outro ponto essencial. Quando alguém estiver falando, resista à tentação de interromper, julgar ou formular sua resposta. Apenas ouça com a intenção de compreender. Resgatar atividades offline, como cozinhar juntos, fazer uma caminhada ou praticar um hobby em comum, são ótimas maneiras de fortalecer o vínculo longe das telas.
Construir relacionamentos saudáveis dá trabalho, mas é um dos investimentos mais importantes que podemos fazer para nossa felicidade e bem-estar. Ao cultivar a presença, não apenas melhoramos a qualidade de nossos vínculos, mas também enriquecemos nossa própria experiência de vida, tornando-a mais significativa e conectada.