Por que não existe um valor “normal” único e o que muda na leitura do seu perfil lipídico segundo a diretriz brasileira de 2025
17/06/2026
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Receber o resultado de um exame de colesterol costuma gerar mais dúvidas do que respostas. Os números chegam cercados de setas para cima, valores de referência e siglas — LDL, HDL, triglicérides, não-HDL — que raramente significam a mesma coisa para todas as pessoas. A pergunta mais útil diante daquele papel não é “meu colesterol está alto?”, e sim “alto para quem?”. É justamente nesse detalhe que mora a interpretação correta.
O exame que popularmente chamamos de “colesterol” é, na verdade, um conjunto de medidas chamado perfil lipídico. Ele avalia frações diferentes que circulam no sangue. O colesterol total soma todas elas e, isoladamente, diz pouco. O LDL, conhecido como colesterol “ruim”, transporta partículas que podem se depositar nas paredes das artérias. O HDL, o “bom”, ajuda a remover o excesso de colesterol da circulação. Os triglicérides representam a gordura usada como reserva de energia e tendem a subir com excesso de açúcar, álcool e calorias.
Há ainda o colesterol não-HDL, que vem ganhando protagonismo. Ele é calculado de forma simples — colesterol total menos HDL — e reúne todas as partículas que de fato favorecem a aterosclerose. Segundo a Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose de 2025, da Sociedade Brasileira de Cardiologia, esse marcador é especialmente útil quando os triglicérides estão acima de 150 mg/dL.

Na maioria dos laboratórios, o valor do LDL não é medido diretamente, e sim estimado por uma fórmula. A diretriz de 2025 passou a recomendar a equação de Martin/Hopkins, considerada mais precisa do que a antiga fórmula de Friedewald, sobretudo quando os triglicérides estão elevados. Isso explica por que, em alguns casos, o médico prefere olhar o colesterol não-HDL: ele não depende de cálculo e sofre menos interferência.
Aqui está o ponto que mais confunde. Não existe um valor de LDL “normal” que sirva para todo mundo. A meta varia conforme o risco cardiovascular de cada pessoa — algo que leva em conta idade, histórico familiar, pressão arterial, diabetes, tabagismo e doenças já existentes. Quem tem baixo risco pode conviver com um LDL mais alto do que quem já teve um infarto.
A diretriz de 2025 organiza essas metas em faixas. Para quem tem baixo risco, o LDL desejável fica abaixo de 115 mg/dL e, a partir de 145 mg/dL, recomenda-se avaliar tratamento. Conforme o risco aumenta, o alvo cai. A grande novidade foi a criação da categoria de risco extremo, para a qual o LDL deve ficar abaixo de 40 mg/dL.
Metas de LDL e não-HDL conforme o risco cardiovascular (SBC, 2025)
| Categoria de risco | Meta de LDL | Meta de não-HDL |
| Baixo | abaixo de 115 mg/dL | abaixo de 145 mg/dL |
| Intermediário | abaixo de 100 mg/dL | abaixo de 130 mg/dL |
| Alto | abaixo de 70 mg/dL | abaixo de 100 mg/dL |
| Muito alto | abaixo de 50 mg/dL | abaixo de 80 mg/dL |
| Extremo (novo) | abaixo de 40 mg/dL | abaixo de 70 mg/dL |
A definição da sua categoria de risco é feita pelo médico, não pelo próprio exame.

Outra atualização prática: na maioria dos casos, o exame não exige mais jejum. A coleta sem jejum é aceitável para a avaliação inicial. A exceção fica para os triglicérides muito elevados — acima de 440 mg/dL em amostra sem jejum —, situação em que o laboratório pode solicitar nova coleta em jejum de 12 horas. Para os triglicérides, considera-se desejável um valor abaixo de 150 mg/dL em jejum e abaixo de 175 mg/dL sem jejum.
A diretriz reforçou a importância de dois exames que ainda aparecem pouco nos pedidos de rotina. A apolipoproteína B (ApoB) estima o número de partículas capazes de obstruir as artérias e é útil quando os triglicérides estão altos. Já a lipoproteína(a), ou Lp(a), é determinada geneticamente, praticamente não muda ao longo da vida e deve ser dosada ao menos uma vez. Valores acima de cerca de 30 mg/dL (ou 75 nmol/L) indicam risco cardiovascular aumentado, mesmo quando o LDL parece controlado.

Antes de qualquer medicação, o estilo de vida continua sendo a base. A própria diretriz aponta que a perda de 5% a 10% do peso em um ano se associou, em média, a uma queda de 40 mg/dL nos triglicérides e a um aumento de 5 mg/dL no HDL. Alimentação rica em fibras, redução de gorduras saturadas, atividade física regular e a interrupção do tabagismo têm efeito real e mensurável sobre o perfil lipídico.
| Atenção Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação de um médico. Os valores citados são metas gerais de referência: a interpretação do seu exame depende do seu risco cardiovascular individual e deve ser feita por um profissional que conheça o seu histórico. |
Interpretar um exame de colesterol é menos sobre decorar valores e mais sobre entender o contexto. O mesmo LDL pode ser tranquilizador para uma pessoa e um alerta para outra. Por isso, o resultado ganha sentido quando lido junto de quem conhece o seu histórico. Leve o papel para a consulta, pergunte qual é a sua faixa de risco e descubra qual número, afinal, é o seu.