Sintomas atípicos, fatores de risco exclusivos e décadas de pesquisa voltada ao corpo masculino ajudam a explicar por que o coração das mulheres exige um olhar próprio.
17/09/2026
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Durante décadas, os estudos sobre doenças cardíacas tiveram como referência quase exclusiva o corpo masculino — e esse recorte ainda aparece nos números de hoje. Segundo o Centers for Disease Control and Prevention (CDC), dos Estados Unidos, as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte entre mulheres, respondendo por cerca de uma em cada cinco mortes femininas no país. Mesmo assim, apenas 56% das mulheres reconhecem essa condição como sua maior ameaça à saúde, de acordo com o mesmo levantamento.
A dor ou pressão no peito segue sendo o sintoma mais comum de infarto tanto em homens quanto em mulheres. Mas, segundo a American Heart Association (AHA), elas apresentam com mais frequência um conjunto mais amplo de sinais, nem sempre associados ao coração à primeira vista: falta de ar, náusea, suor frio, dor na mandíbula, no pescoço ou nas costas, indigestão e fadiga extrema. Esses sintomas podem aparecer isolados ou combinados, sem o aperto característico descrito por muitos homens. Algumas mulheres relatam ainda uma sensação de pressão nas costas, como uma corda sendo apertada ao redor do tórax.
Essa variação tem um efeito prático preocupante: sinais que não são reconhecidos como cardíacos atrasam a busca por atendimento. A própria AHA observa que mulheres tendem a atribuir esses sintomas a cansaço, estresse ou ansiedade, o que pode custar um tempo precioso durante um infarto.

Parte da explicação para esse descompasso está na forma como a cardiologia se desenvolveu. Mulheres foram, por muito tempo, sub-representadas em ensaios clínicos sobre doenças coronarianas, e os critérios diagnósticos — como o cateterismo usado para identificar obstruções nas artérias — foram calibrados a partir de corpos masculinos.
A cardiologista C. Noel Bairey Merz, do Smidt Heart Institute, no Cedars-Sinai Medical Center, liderou o estudo Women’s Ischemia Syndrome Evaluation (WISE), financiado pelo National Institutes of Health, que ajudou a expor essa lacuna. As descobertas do WISE mostraram que muitas mulheres com sintomas de isquemia — a dor no peito de origem cardíaca — não apresentam as obstruções visíveis que os exames tradicionais buscam. Nelas, o problema costuma estar nos vasos sanguíneos microscópicos do coração, uma condição chamada disfunção microvascular coronariana, que segue subdiagnosticada porque os protocolos de investigação, historicamente, não foram desenhados para identificá-la.
Além das diferenças nos sintomas, mulheres enfrentam fatores de risco cardiovascular sem equivalente direto na experiência masculina. A queda de estrogênio durante a transição menopáusica é um deles: o hormônio ajuda a manter os vasos sanguíneos relaxados e contribui para o equilíbrio do colesterol, e sua redução favorece o acúmulo de placas nas artérias. Uma revisão publicada no Methodist DeBakey Cardiovascular Journal aponta que mulheres entre 40 e 54 anos já na pós-menopausa apresentam incidência de doença cardiovascular de duas a seis vezes maior do que as que ainda não passaram pela transição.
A gestação é outro capítulo pouco discutido fora do consultório obstétrico. Um posicionamento científico da American Heart Association, publicado na revista Circulation, mostra que complicações como pré-eclâmpsia, diabetes gestacional e hipertensão induzida pela gravidez não se encerram no parto: elas sinalizam um risco cardiovascular que pode dobrar as chances de doença cardíaca e AVC nas décadas seguintes. Ainda assim, esse histórico raramente entra nas perguntas de rotina depois que o pré-natal termina.

Diante desse quadro, algumas perguntas concretas ajudam a orientar o cuidado: os exames de rotina consideram um histórico de complicações na gravidez? Sintomas como fadiga incomum ou falta de ar têm sido investigados com a mesma seriedade que uma dor no peito receberia? A menopausa já entrou na conversa sobre risco cardiovascular?
Levar essas questões ao médico ajuda a preencher lacunas que a própria história da cardiologia deixou em aberto. Reconhecer que o coração das mulheres se manifesta — e adoece — de um jeito próprio é o que torna possível um diagnóstico a tempo.