Revisão sistemática na Sleep Medicine Reviews com mais de 1,3 milhão de participantes associa insônia a 26% mais risco de AVC e 28% mais chances de hospitalização
28/09/2026
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A maioria das pessoas que enfrenta insônia pensa no problema em termos do dia seguinte: o cansaço, a dificuldade de concentração, o mau humor. Mas uma revisão sistemática publicada na Sleep Medicine Reviews pelo IRCCS Istituto delle Scienze Neurologiche di Bologna aponta para consequências muito mais sérias e duradouras: pessoas com insônia têm 26% mais risco de sofrer um acidente vascular cerebral (AVC) e 28% mais chances de hospitalização por qualquer motivo — resultados consolidados a partir de dados de mais de 1,3 milhão de pessoas.
O estudo, liderado por Luca Vignatelli e financiado pela Academia Europeia de Neurologia, é uma revisão de revisões sistemáticas — o chamado “umbrella review” —, uma metodologia que agrega evidências de múltiplas meta-análises para produzir estimativas mais robustas. Os pesquisadores rastrearam as bases de dados MEDLINE e EMBASE até agosto de 2025 e identificaram estudos sobre os riscos da insônia para a saúde cerebral (incluindo AVC, demência e doença de Alzheimer), saúde mental (depressão, ansiedade, comportamentos suicidas) e saúde geral (hospitalização e lesões ocupacionais).
Para o risco de AVC, os pesquisadores identificaram 9 estudos elegíveis, dos quais 6 foram incluídos na meta-análise. O conjunto de dados combinados representou mais de 1,3 milhão de participantes. O resultado: pessoas com insônia apresentaram hazard ratio de 1,26 (IC 95%: 1,05–1,53) para AVC — ou seja, 26% mais risco em comparação a pessoas sem insônia.
Os pesquisadores reconhecem que a magnitude da associação variou substancialmente entre os estudos incluídos — o que é comum em revisões que consolidam estudos conduzidos em diferentes países, com diferentes definições de insônia e diferentes populações. Ainda assim, o resultado consolidado permaneceu estatisticamente significativo, reforçando que a associação é real e clinicamente relevante. Para hospitalização, a análise de 3 estudos (entre 5 elegíveis) encontrou odds ratio de 1,28 (IC 95%: 1,14–1,43) — 28% mais chances de internação hospitalar por qualquer causa.

A revisão também encontrou associações entre insônia e demência — com as evidências mais consistentes para a doença de Alzheimer. Os achados para demência por todas as causas foram menos uniformes entre os estudos, e os resultados para demência vascular foram mistos. As associações com depressão e comportamentos suicidas também foram identificadas, alinhando-se ao que outras pesquisas já haviam documentado sobre os efeitos da privação crônica de sono na regulação emocional e nos sistemas de estresse do organismo.
“A insônia merece atenção como um sinal de alerta do estado de saúde cerebral e mental. Esses achados mostram que alguém com insônia tem risco aumentado de demência ou AVC. A insônia deve ser reconhecida e tratada como parte de uma abordagem mais ampla à saúde, para reduzir o risco de desenvolver esses transtornos”, afirmou Vignatelli.
A insônia crônica — que atende a critérios diagnósticos formais — afeta aproximadamente 22% da população geral, segundo estimativas citadas pelos autores. Isso significa que as implicações desta revisão se aplicam a uma fração enorme da população. A boa notícia é que a insônia é tratável: a terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I) é considerada o tratamento de primeira linha não farmacológico e apresenta eficácia documentada, incluindo em populações com comorbidades neurológicas.
“O sono deve fazer parte da conversa sobre saúde cerebral em todas as idades. Precisamos aumentar a conscientização sobre a insônia e seu tratamento, e garantir que o sono seja incluído em programas de promoção da saúde em nossas comunidades, escolas e locais de trabalho”, disse o professor Stefan Seidel, coautor do estudo. A mensagem prática é clara: tratar a insônia não é apenas uma questão de qualidade de vida imediata — pode ser um investimento na saúde cardiovascular e cognitiva a longo prazo.