Ensaio clínico randomizado da UC San Diego no JNCI: 12 meses de exercício desaceleraram o relógio epigenético em sobreviventes de câncer de mama — de 10 meses para apenas 1 mês de envelhecimento.
30/09/2026
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Concluir o tratamento do câncer de mama é uma vitória — mas, para muitas sobreviventes, os efeitos colaterais cognitivos persistem muito além da última quimioterapia ou radioterapia. Lapsos de atenção, memória lenta, dificuldade de se concentrar: sintomas que os clínicos reconhecem como “chemo brain” e que afetam cerca de 1 em cada 3 sobreviventes de câncer de mama. São efeitos que surgem da combinação de tratamento, inflamação, alterações hormonais, fadiga e estresse — e que podem comprometer significativamente a qualidade de vida, o trabalho e as relações cotidianas.
Um ensaio clínico randomizado da University of California San Diego (UC San Diego), com participação do Moores Cancer Center, testou diretamente se um programa de exercícios poderia reverter parte desse quadro. Os resultados, publicados em 30 de setembro de 2026 no Journal of the National Cancer Institute em dois artigos simultâneos, oferecem uma resposta encorajadora em duas frentes: cognição e envelhecimento biológico.
O estudo “I Can!” recrutou 253 sobreviventes de câncer de mama que haviam concluído o tratamento ativo, relatavam baixos níveis de atividade física e tinham dificuldades cognitivas autorrelatadas. Elas foram randomizadas para dois grupos: um programa de exercícios remotamente supervisionado — com rastreadores de atividade, coaching personalizado e meta de 150 minutos semanais de atividade física de intensidade moderada a vigorosa — ou um programa de saúde e bem-estar com contato regular com um coach de saúde, mas sem prescrição de exercícios.
As participantes foram avaliadas em termos de atenção, memória, velocidade de processamento, função executiva e cognição autorrelatada no início, nos 6 e nos 12 meses. O resultado nos desfechos primários foi misto: não houve diferenças significativas entre os grupos em velocidade de processamento e cognição autorrelatada. Mas no desfecho de atenção — central para a vida cotidiana —, o grupo de exercícios mostrou maiores melhorias em 6 e 12 meses. E em memória, os benefícios foram maiores aos 6 meses.

O segundo artigo, uma análise do mesmo ensaio focada em envelhecimento epigenético, trouxe o dado mais impressionante. Os relógios epigenéticos — ferramentas que medem a “idade biológica” do DNA a partir de padrões de metilação — foram aplicados em amostras de sangue de 124 participantes coletadas no início, aos 6 e aos 12 meses.
No início do estudo, a idade epigenética das participantes era, em média, 8,7 anos mais alta do que a cronológica — uma marca comum em sobreviventes de câncer que passaram por tratamentos intensos. Ao longo dos 12 meses de estudo, os dois grupos continuaram envelhecendo biologicamente — mas em velocidades radicalmente diferentes. O grupo de saúde e bem-estar acumulou quase 10 meses de envelhecimento epigenético. O grupo de exercícios acumulou apenas cerca de 1 mês. A diferença corresponde a quase um ano de envelhecimento biológico “poupado” pelo exercício.
“O que é particularmente impressionante nesses achados é que os efeitos do exercício foram mensuráveis tanto no nível molecular quanto no desempenho cognitivo”, disse Paula Desplats, professora de neurologia na Ohio State University e coautora sênior. “As mudanças que observamos nos marcadores de envelhecimento epigenético sugerem que mesmo um aumento relativamente modesto da atividade física pode influenciar processos biológicos que ajudam a manter o cérebro saudável.”
O programa de exercícios do estudo foi deliberadamente acessível: remoto, individualizado, focado em atividade moderada — como caminhadas, natação leve ou dança — e baseado em rastreadores de atividade simples. A meta de 150 minutos semanais é a mesma recomendação da Organização Mundial da Saúde para adultos em geral. Não era um protocolo de atletas: era um esforço acessível a quem está saindo de um tratamento oncológico.
“É encorajador que as participantes tenham obtido esse benefício com um aumento modesto e alcançável da atividade física”, disse Sheri Hartman, professora da UC San Diego e autora principal do estudo de cognição. “Em última análise, queremos entender não apenas se o exercício ajuda, mas quem tem maior probabilidade de se beneficiar, quanta atividade é necessária e quais mudanças no organismo podem explicar esses benefícios.” O próximo passo é confirmar os achados em estudos maiores e entender se a desaceleração do envelhecimento epigenético é a causa direta ou um marcador paralelo das melhorias cognitivas.