Estudos ligam o interesse ativo pelo novo a uma memória mais afiada, a um envelhecimento cognitivo mais lento e até a uma vida mais longa, e a boa notícia é que esse traço pode ser treinado em qualquer idade.
22/10/2026
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Pouca gente pensa na curiosidade como um fator de saúde. Ela costuma ser associada à infância e tratada como um traço que se apaga com a idade. A pesquisa científica das últimas décadas aponta outra direção: o interesse ativo pelo novo parece estar ligado a uma memória mais afiada, a um envelhecimento cognitivo mais lento e até a uma vida mais longa. E, como acontece com outros hábitos, a curiosidade pode ser cultivada.
Para a psicologia, curiosidade é o desejo de buscar informações e experiências novas, mesmo quando não há recompensa imediata. O psicólogo Todd Kashdan, da Universidade George Mason, nos Estados Unidos, publicou em 2018 no Journal of Research in Personality um modelo que divide esse impulso em cinco dimensões: a exploração prazerosa, o incômodo de não saber (que move a busca por respostas), a tolerância ao estresse diante do desconhecido, a curiosidade social e a busca por sensações. Ninguém, portanto, é curioso de um jeito só.
Um traço vizinho, a abertura à experiência, descreve a disposição para ideias novas, arte e pontos de vista diferentes do próprio, e aparece com frequência nas pesquisas sobre envelhecimento.

Em 2014, uma equipe da Universidade da Califórnia em Davis, coordenada pelo neurocientista Charan Ranganath, publicou na revista Neuron um experimento revelador. Voluntários indicavam o quanto estavam curiosos para saber a resposta de perguntas de conhecimento geral. Enquanto esperavam a resposta, viam fotos de rostos sem nenhuma relação com o tema. Quando a curiosidade estava alta, os participantes lembravam melhor das respostas e também dos rostos, mesmo um dia depois. Os exames de ressonância magnética mostraram maior atividade no circuito da dopamina e no hipocampo, região central para a formação de memórias.
Em termos práticos, o estado de curiosidade prepara o cérebro para aprender.
A relação com a expectativa de vida apareceu em estudos de acompanhamento. Em 1996, os pesquisadores Gary Swan e Dorit Carmelli publicaram na Psychology and Aging uma análise de idosos participantes do Western Collaborative Group Study, na Califórnia. Ao longo de cinco anos, aqueles com níveis mais altos de curiosidade no início da pesquisa tiveram maior probabilidade de continuar vivos, mesmo após o ajuste para idade e condições de saúde preexistentes.
Um resultado na mesma linha veio do Normative Aging Study, que acompanha veteranos americanos há décadas. Em artigo de 2012 no Journal of Aging and Health, Nicholas Turiano e colegas observaram que homens com maior abertura à experiência, sobretudo na faceta ligada à criatividade, apresentaram menor risco de morte no período analisado.
Esses estudos são observacionais: mostram associação, não causa e efeito. Pessoas mais saudáveis podem, por exemplo, ter mais energia para se interessar pelo mundo. Ainda assim, uma revisão publicada em 2018 na Neuroscience & Biobehavioral Reviews por Michiko Sakaki, Ayano Yagi e Kou Murayama defende que a curiosidade pode ser uma peça-chave do envelhecimento adaptativo, por manter as pessoas engajadas em aprender, se movimentar e se relacionar.

O Synapse Project, conduzido pela psicóloga Denise Park na Universidade do Texas em Dallas e publicado em 2014 na Psychological Science, dividiu adultos de 60 a 90 anos em grupos. Parte deles passou cerca de três meses aprendendo habilidades exigentes e desconhecidas, como fotografia digital ou costura de patchwork, por mais de 15 horas semanais. Outra parte fez atividades familiares e mais passivas, como ouvir música clássica e resolver palavras cruzadas. Ao final, quem encarou o desafio novo teve ganhos maiores na memória episódica.
A diferença está no esforço. Atividades confortáveis são agradáveis, mas exigem pouco de um cérebro que já as domina. O estímulo vem do território desconhecido, aquele em que você erra, ajusta e tenta de novo.
Durante sete dias, transforme a curiosidade em registro.
Para refletir: qual foi a última vez que você aprendeu algo só pelo prazer de saber?

A curiosidade não depende de idade, diploma ou tempo livre de sobra. Ela se alimenta de atenção: notar o que você não entende e decidir ir atrás. Com o passar dos anos, esse gesto simples ajuda a manter ativas as conexões do cérebro, os vínculos com outras pessoas e o próprio interesse pela vida. Escolha uma dúvida que você vem adiando e reserve para ela quinze minutos ainda esta semana. Pode ser o começo de um aprendizado que dura décadas.