A ciência já explica por que o excesso de comida industrializada mantém o organismo em estado de alerta — e quais trocas fazem diferença na prática.
10/08/2026
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Abra o armário da cozinha e observe os rótulos. Biscoito recheado, macarrão instantâneo, refrigerante, salgadinho, pão de forma com uma lista de ingredientes que mais parece uma fórmula química. Esses produtos têm nome técnico: alimentos ultraprocessados. E a relação deles com um processo silencioso do corpo, a inflamação crônica, virou um dos temas mais estudados pela ciência da nutrição na última década. Antes de entender essa ligação, vale separar o que cada parte significa.
A classificação mais usada no mundo para agrupar alimentos pelo grau de processamento nasceu no Brasil. O pesquisador Carlos Monteiro e sua equipe, na Universidade de São Paulo, criaram o sistema NOVA, que separa os alimentos em quatro grupos — dos in natura (frutas, legumes, grãos) até os ultraprocessados. Estes últimos são formulações industriais feitas em boa parte de substâncias extraídas de alimentos e de aditivos como emulsificantes, corantes, aromatizantes e realçadores de sabor. Costumam ter pouca comida de verdade reconhecível na composição.
O Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, recomenda de forma direta reduzir esse tipo de produto e priorizar alimentos in natura ou minimamente processados. E o alerta tem peso: levantamentos mostram que os ultraprocessados já respondem por uma fatia expressiva das calorias consumidas em vários países.

Inflamação, por si só, não é vilã. É a resposta natural de defesa do organismo diante de uma infecção ou de uma lesão — a vermelhidão em volta de um corte é um exemplo visível dela trabalhando. O problema aparece quando essa resposta deixa de ser pontual e passa a funcionar em fogo baixo, o tempo todo. É a chamada inflamação crônica de baixo grau: não dói, não incha, mas desregula o equilíbrio do corpo e aparece associada a doenças como diabetes tipo 2, obesidade, problemas cardiovasculares e alguns tipos de câncer.
Uma revisão publicada na revista científica Nutrients, assinada por pesquisadores da Universidade de Florença, reuniu as evidências que ligam o consumo elevado de ultraprocessados a essa inflamação silenciosa. Os caminhos são vários e se somam.
O primeiro passa pelo intestino. Aditivos comuns nesses produtos, como emulsificantes e certos espessantes, podem alterar a microbiota intestinal e enfraquecer a barreira que protege a parede do intestino. Quando essa barreira fica mais permeável, substâncias que deveriam permanecer no trato digestivo escapam para a circulação e acionam o sistema imune — um gatilho para a inflamação.
O segundo caminho é a própria composição: muito açúcar, gorduras de baixa qualidade, sódio e alta densidade calórica, com pouca fibra. Estudos que medem marcadores inflamatórios no sangue, como a proteína C-reativa e as interleucinas, encontram valores mais altos em quem consome mais ultraprocessados — inclusive entre crianças e adolescentes.
Há ainda um fator indireto, mas decisivo. Em 2019, o pesquisador Kevin Hall, dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos, conduziu o primeiro ensaio clínico controlado sobre o tema, publicado na Cell Metabolism. Vinte adultos passaram duas semanas comendo à vontade uma dieta ultraprocessada e duas semanas com alimentos não processados, equiparadas em calorias, açúcar, gordura e fibra. Na fase ultraprocessada, eles consumiram em média cerca de 500 calorias a mais por dia e ganharam peso. Como o excesso de gordura corporal também produz substâncias inflamatórias, o ganho de peso realimenta o ciclo.

Nada disso transforma cada refeição em motivo de culpa nem exige eliminar para sempre o bolo de aniversário. Uma alimentação equilibrada se constrói pelo que está no prato na maior parte do tempo, não pela exceção de um fim de semana. Algumas trocas simples reduzem a carga de ultraprocessados sem tornar a rotina insustentável:
Diminuir esses produtos não exige perfeição nem dietas restritivas. A cada troca por comida de verdade, você dá ao corpo menos motivos para manter aquele estado de alerta silencioso e mais nutrientes para funcionar bem. O prazer de comer continua no cardápio — ele só passa a caber dentro de uma relação mais tranquila e equilibrada com a comida.