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GLP-1: o que a ciência já sabe sobre os medicamentos que mudaram o tratamento da obesidade

De hormônio intestinal a classe farmacológica mais discutida da década — o que essas drogas fazem no corpo, o que os grandes ensaios mostraram e quais perguntas continuam abertas.

19/08/2026

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Os agonistas de GLP-1 partiram de um hormônio intestinal descoberto nos anos 1980 e reorganizaram o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. Este artigo reúne o que os grandes ensaios mostraram: 17,3% de perda de peso média em 68 semanas no STEP 1 e redução de 20% em eventos cardiovasculares maiores no SELECT, com 17.604 participantes. Também trata das perguntas abertas — recuperação de dois terços do peso após a suspensão, perda de massa magra, efeitos gastrointestinais e acesso — e do que vem pela frente, com o comprimido orforglipron e o agonista triplo retatrutida.

O GLP-1 não foi inventado em laboratório. É um hormônio produzido pelo próprio intestino quando você come, identificado por pesquisadores ainda nos anos 1980. Ele avisa ao pâncreas que é hora de liberar insulina, desacelera o esvaziamento do estômago e conversa com regiões do cérebro que regulam apetite e saciedade. A novidade das últimas duas décadas foi conseguir reproduzir esse sinal com moléculas que duram dias no organismo, em vez dos poucos minutos do hormônio natural.

O que começou como tratamento para diabetes tipo 2 acabou reorganizando a medicina da obesidade. Vale a ressalva antes de seguir: este texto é informativo e não substitui avaliação médica. Nenhum desses medicamentos deve ser usado por conta própria.

O que os grandes ensaios mostraram

O marco na obesidade foi o programa STEP. No STEP 1, 1.961 adultos com obesidade — ou com sobrepeso e ao menos uma comorbidade —, sem diabetes, receberam semaglutida injetável semanal ou placebo, sempre associados a orientação de estilo de vida. Em 68 semanas, a perda média de peso foi de 17,3% no grupo da semaglutida contra 2,0% no placebo.

O achado que mudou a conversa, porém, não foi sobre a balança. Publicado no New England Journal of Medicine em 2023, o ensaio SELECT acompanhou 17.604 adultos com 45 anos ou mais, com doença cardiovascular prévia e sobrepeso ou obesidade, mas sem diabetes, em 41 países, por cerca de 40 meses. Quem recebeu semaglutida teve redução de 20% no risco de eventos cardiovasculares maiores — infarto, AVC e morte cardiovascular — em comparação com o placebo. A perda de peso média foi de 9,4%, contra 0,9% no grupo placebo.

É um dado relevante porque desloca a discussão: deixa de ser um remédio para emagrecer e passa a ser um tratamento com desfecho clínico duro em uma população de alto risco.

As perguntas que continuam abertas

A primeira é a mais incômoda: o que acontece quando o tratamento para. A extensão do STEP 1, publicada em 2022 na Diabetes, Obesity and Metabolism, acompanhou os participantes por um ano após a suspensão do medicamento e da intervenção de estilo de vida. Eles recuperaram cerca de dois terços do peso perdido, e os marcadores cardiometabólicos seguiram o mesmo caminho de volta. A leitura clínica é que a obesidade se comporta como condição crônica, e não como episódio a ser resolvido em um ciclo de tratamento.

A segunda pergunta é sobre composição corporal. Perder peso rápido significa perder também massa magra, e revisões sistemáticas publicadas em 2026 no International Journal of Obesity confirmam que a massa magra absoluta cai durante o tratamento, ainda que sua proporção em relação ao peso total aumente. Daí a recomendação, cada vez mais presente nas orientações de acompanhamento, de associar treino de força e ingestão adequada de proteína a quem usa esses medicamentos.

Há ainda os efeitos adversos gastrointestinais — náusea, vômito, diarreia e constipação —, em geral leves a moderados e concentrados na fase de aumento de dose. E há a questão que nenhuma molécula resolve: custo e acesso. Tratamento contínuo, preço alto e cobertura irregular formam uma barreira concreta.

Para onde a pesquisa está indo

Duas frentes concentram as atenções. A primeira é a via oral. O orforglipron, um agonista de GLP-1 de molécula pequena tomado em comprimido, alcançou perda média de 12,4% do peso corporal em 72 semanas no ensaio de fase 3 ATTAIN-1, com 3.127 participantes, publicado no New England Journal of Medicine. Um comprimido diário, sem necessidade de refrigeração, tem implicações logísticas óbvias para sistemas de saúde.

A segunda frente é a combinação de alvos. A retatrutida age simultaneamente sobre os receptores de GLP-1, GIP e glucagon. Em ensaio de fase 2 publicado no New England Journal of Medicine em 2023, com 338 adultos com obesidade, a dose mais alta produziu redução média de 24,2% do peso corporal em 48 semanas. São resultados de fase intermediária, com amostra pequena e sem dados de longo prazo — promissores, mas ainda não conclusivos.

Como interpretar tudo isso

A chegada dessa classe não tornou obsoleto nada do que se sabia sobre alimentação, sono e movimento. Os próprios ensaios foram conduzidos com intervenção de estilo de vida em paralelo, nos dois grupos. O que mudou é a compreensão de que a regulação do peso tem forte componente biológico e que, para parte das pessoas, força de vontade nunca foi o fator limitante.

Uma classe nova, uma conversa antiga

Se você convive com obesidade ou diabetes tipo 2, a decisão sobre usar ou não esses medicamentos pertence ao consultório, com avaliação de risco individual e acompanhamento continuado. Se não é o seu caso, o valor de entender o tema é outro: acompanhar essa ciência ajuda a separar o que é avanço documentado do que é entusiasmo de mercado. E a manter o cuidado com o corpo onde ele sempre esteve — na rotina, com ou sem prescrição.

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LINCOFF, A. M. et al. Semaglutide and Cardiovascular Outcomes in Obesity without Diabetes (ensaio SELECT). The New England Journal of Medicine, 2023. WILDING, J. P. H. et al. Weight regain and cardiometabolic effects after withdrawal of semaglutide: the STEP 1 trial extension. Diabetes, Obesity and Metabolism, v. 24, n. 8, p. 1553–1564, 2022. JASTREBOFF, A. M. et al. Triple–Hormone-Receptor Agonist Retatrutide for Obesity — A Phase 2 Trial. The New England Journal of Medicine, 2023. DOI: 10.1056/NEJMoa2301972. Orforglipron, an Oral Small-Molecule GLP-1 Receptor Agonist for Obesity Treatment (ensaio ATTAIN-1). The New England Journal of Medicine, 2025. DOI: 10.1056/NEJMoa2511774. Effect of GLP-1 receptor agonists at doses for obesity management on muscle health: systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. International Journal of Obesity, 2026.