Sentir-se bem consigo mesmo vai muito além de repetir afirmações positivas. Conheça abordagens fundamentadas na psicologia para aprofundar a relação com você mesmo
21/05/2026
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Você já ouviu que precisa ser mais gentil consigo mesmo. Já leu sobre autocompaixão, talvez até tenha tentado praticar. Mas em algum momento, a coisa travou. As afirmações positivas soaram falsas, a meditação de amor e gentileza pareceu forçada, e a sensação foi de que você simplesmente “não tem jeito” para esse tipo de prática.
Essa resistência não é um defeito seu — é um sinal de que você está pronto para ir mais fundo.
A autocompaixão, conforme definida pela pesquisadora Kristin Neff, professora da Universidade do Texas em Austin e uma das principais especialistas no tema, é composta por três elementos interdependentes: autoconsciência equilibrada (reconhecer a dor sem exagerar nem minimizar), humanidade compartilhada (entender que sofrer faz parte da experiência humana) e gentileza consigo mesmo (oferecer a si o mesmo cuidado que você daria a um amigo próximo). O problema é que a maioria das introduções ao tema para por aí — e as práticas convencionais frequentemente ativam exatamente o que deveriam desativar.

Pesquisadores identificaram um fenômeno chamado “backdraft” emocional: quando alguém começa a praticar autocompaixão, pode emergir uma onda de dor reprimida antes mesmo que o alívio apareça. É como abrir uma janela trancada há anos — o primeiro fluxo de ar traz poeira.
Um estudo publicado no periódico Mindfulness (2020), conduzido por pesquisadores da Universidade de Toronto, mapeou esse processo em participantes que relatavam alta autocrítica. Os dados mostraram que indivíduos com histórico de vergonha internalizada tinham reações iniciais mais intensas às práticas de compaixão — e que abandonar a prática nesse ponto era o erro mais comum. A conclusão dos autores foi que técnicas escalonadas, que começam pela autocompaixão “de fora para dentro”, produziam resultados mais sustentáveis.
Em vez de escrever uma carta de gentileza diretamente para si mesmo — o que muitas vezes ativa a autocrítica — experimente escrever como se fosse um observador compassivo e neutro descrevendo sua situação de fora. Use a terceira pessoa.
Descreva o que essa pessoa está vivendo, o que ela sente, o que ela carrega. Observe sem julgamento. Ao final, escreva uma ou duas frases do que esse observador diria para ela.
Esse distanciamento psicológico, estudado pelo professor Ethan Kross da Universidade de Michigan em seu trabalho sobre “self-distancing”, reduz a intensidade emocional e torna o autojulgamento menos paralisante. Em seus estudos, Kross demonstrou que falar de si mesmo na terceira pessoa ativa regiões do cérebro associadas à regulação emocional, em vez das associadas à ruminação.

A maioria das práticas de autocompaixão acontece no plano verbal ou cognitivo. Uma abordagem mais avançada é trabalhar pela via somática — isto é, pelo corpo.
Quando surgir um pensamento autocrítico, pause e pergunte: onde isso aparece no corpo? É uma tensão no peito? Uma sensação de peso nos ombros? Um aperto na garganta?
Após identificar a localização, coloque a mão nesse ponto, como faria com alguém que está sofrendo. Não precisa dizer nada. A pesquisa do neurocientista James Coan, da Universidade da Virgínia, sobre “social baseline theory” mostrou que o toque — inclusive o autopropiciado — ativa circuitos de regulação semelhantes aos ativados pelo contato com pessoas de confiança. O corpo responde à intenção de cuidado antes mesmo que a mente racional concorde.
Avançar na autocompaixão não significa suportar níveis ilimitados de desconforto emocional. O conceito de “janela de tolerância”, desenvolvido pelo psiquiatra Daniel Siegel e amplamente utilizado em abordagens terapêuticas como o EMDR e a terapia somática, descreve a faixa de ativação emocional dentro da qual o aprendizado e a cura acontecem.
Acima dessa janela: hiperativação (ansiedade, pânico, raiva intensa). Abaixo: hipoativação (entorpecimento, dissociação, apatia). Dentro dela: espaço onde é possível sentir sem ser dominado.
O exercício avançado aqui é mapear sua própria janela. Quais situações te lançam para fora dela? Em quais estados você costuma praticar autocompaixão — e o quanto isso afeta a qualidade da prática? Ajustar o momento e o contexto das práticas aumenta significativamente sua eficácia.

A pesquisadora Brené Brown, da Universidade de Houston, passou décadas estudando a diferença entre culpa e vergonha — e a distinção é fundamental para qualquer prática avançada de autocompaixão.
Culpa diz: “Eu fiz algo ruim.” Vergonha diz: “Eu sou algo ruim.”
A culpa, paradoxalmente, é compatível com a autocompaixão — ela reconhece o erro sem atacar a identidade. A vergonha, não. Antes de qualquer prática de gentileza consigo mesmo, vale perguntar: estou me culpando pelo que fiz, ou me envergonhando do que sou? A resposta muda completamente a estratégia.
Um exercício útil é escrever a autocrítica presente e então identificar qual das duas categorias ela pertence. Se for vergonha, o primeiro passo não é gentileza — é separar o comportamento da identidade.

Autocompaixão avançada não é sobre sentir-se bem o tempo todo. É sobre desenvolver uma relação mais honesta e mais estável com sua própria experiência — uma que consiga sustentar tanto a dor quanto a alegria sem precisar fugir de nenhuma das duas.
Esse nível de prática não acontece em um fim de semana. Mas acontece — e os estudos longitudinais de Kristin Neff e de Christopher Germer, codesenvolvedor do programa Mindful Self-Compassion (MSC), indicam que oito semanas de prática estruturada produzem mudanças mensuráveis em bem-estar, redução de ansiedade e aumento da resiliência emocional.
O convite não é ser perfeito nisso. É ser consistente — mesmo quando a prática parecer forçada, estranha ou inútil. Especialmente nesse momento.