Melhore suas habilidades interpessoais e construa confiança com journaling estratégico.
26/02/2026
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Existe um paradoxo curioso no mundo corporativo: as pessoas que mais duvidam de suas habilidades frequentemente são aquelas que melhor se relacionam com os outros. Enquanto a síndrome do impostor é amplamente retratada como um obstáculo a ser superado, pesquisas recentes sugerem uma história muito mais nuançada. A dúvida sobre sua própria competência pode, na verdade, ser uma vantagem competitiva inesperada — desde que você saiba como canalizá-la.
Durante anos, o discurso dominante focou exclusivamente nos aspectos negativos da síndrome do impostor: ansiedade, diminuição da satisfação no trabalho, risco de burnout. Mas o que os estudos mais recentes revelam é que essa experiência possui uma faceta oculta, frequentemente ignorada. Quando você compreende e ressignifica esses sentimentos, eles podem se transformar em um combustível poderoso para o crescimento pessoal e profissional.

A pesquisadora Basima Tewfik, do MIT Sloan, dedicou-se a investigar uma pergunta que desafiava a sabedoria convencional: e se a síndrome do impostor não fosse uniformemente prejudicial? Seus estudos, conduzidos com mais de 160 funcionários de empresas de investimento, cadetes militares e médicos em treinamento, revelaram descobertas surpreendentes .
Tewfik descobriu que pessoas com pensamentos impostores apresentavam melhor desempenho em tarefas interpessoais. Elas eram mais eficazes em ajudar colegas, cooperar em projetos colaborativos e encorajar outros. Mas por quê? A resposta está em um mecanismo psicológico elegante: quando você sente que sua competência é inferior ao que os outros pensam, você tende a compensar investindo mais em relacionamentos.
Em um estudo particularmente revelador com médicos em treinamento, Tewfik utilizou simulações de pacientes com atores treinados. Os resultados foram notáveis. Os médicos com pensamentos impostores chegaram aos mesmos diagnósticos e planos de tratamento que seus colegas sem esses pensamentos — ou seja, sua competência técnica não foi prejudicada. Porém, eles se destacaram significativamente em interação interpessoal. Esses médicos praticavam escuta ativa mais profunda, inclinavam-se para frente com maior atenção, espelhavam a linguagem corporal dos pacientes, faziam mais perguntas e ofereciam explicações mais detalhadas. Os pacientes-atores e observadores externos os classificaram como mais eficazes interpessoalmente .

Esse fenômeno revela algo fundamental sobre como funcionamos: a dúvida pode nos tornar mais empáticos. Quando você questiona sua própria competência, você naturalmente se torna mais atento às percepções e sentimentos alheios. Essa “orientação para o outro” não é uma fraqueza — é uma habilidade cada vez mais valiosa em um mundo profissional que prioriza colaboração, liderança empática e trabalho em equipe.
Mike McDerment, CEO da Freshbooks, compreendeu isso intuitivamente. Ele argumenta que líderes fortes usam a síndrome do impostor como uma vantagem competitiva. Admitir que você não tem todas as respostas não o torna um fraude. Pelo contrário, isso permite que você defina e resolva problemas de forma mais eficiente, criativa e colaborativa . Quando você reconhece as limitações de seu conhecimento, você abre espaço para aprender com os outros, para inovar e para construir soluções mais robustas.
Compreender que a síndrome do impostor possui um lado positivo é importante, mas transformar essa compreensão em ação é essencial. É aqui que entra uma ferramenta poderosa: o journaling estratégico. Especificamente, a prática de documentar e refletir sobre suas conquistas pode reescrever a narrativa interna que alimenta os pensamentos impostores.
A psicóloga Carol Dweck, renomada por sua pesquisa sobre mentalidade de crescimento, descobriu algo crucial: elogiar o esforço em vez do talento é a melhor forma de construir um senso robusto de autoestima que impede a síndrome do impostor de se infiltrar . Essa descoberta é fundamental para entender como o journaling funciona. Não se trata apenas de registrar sucessos — trata-se de reconhecer o trabalho, a dedicação e as habilidades que você utilizou para alcançá-los.

Existem várias abordagens para implementar o journaling como ferramenta de internalização de conquistas. Cada uma oferece um ângulo diferente para ajudá-lo a reconhecer seu valor.
Este é o formato mais direto e é especialmente útil para contextos profissionais. Crie um documento — pode ser um caderno físico ou digital — intitulado “Meu Arquivo de Vitórias”. Ao final de cada semana, dedique 15 minutos para registrar todas as suas realizações, independentemente do tamanho. Desde apresentações bem-sucedidas até pequenas contribuições em reuniões, tudo conta.
O propósito não é vaidade. Esse arquivo serve como um registro concreto que você pode consultar durante revisões de desempenho, quando enfrenta momentos de dúvida ou quando precisa se preparar para uma conversa sobre promoção ou aumento. Ele transforma a dúvida em evidência.
Em vez de focar apenas no resultado, este formato enfatiza o processo. Ao final de cada dia, escreva sobre três coisas que realizou e, para cada uma, identifique:
1. Qual habilidade você utilizou (comunicação, análise, criatividade, liderança)?
2. Como você se esforçou para alcançar esse resultado?
3. O que você aprendeu no processo?
Este exercício alinha-se com a pesquisa de Dweck. Ao reconhecer o esforço, você começa a internalizar que seu sucesso é resultado de seu trabalho, não de sorte ou circunstância.
Uma vez por mês, revise seu diário e compile uma lista de forças que você descobriu sobre si mesmo. Não são apenas competências técnicas — incluem qualidades como resiliência, empatia, criatividade, capacidade de resolver problemas sob pressão. Este exercício mensal cria uma narrativa progressiva de autodescoberta.
Se você acha difícil começar a escrever, use prompts guiados. Exemplos incluem: “Hoje, ajudei alguém porque…”, “Meu maior desafio foi… e como o superei”, “Uma habilidade que descobri em mim hoje foi…”. Os prompts fornecem estrutura e facilitam a reflexão mais profunda.

A chave para que o journaling funcione é a consistência. Não precisa ser uma tarefa monumental. Cinco a quinze minutos por dia são suficientes. Alguns preferem fazer isso pela manhã, estabelecendo uma intenção positiva para o dia. Outros preferem à noite, refletindo sobre o que foi realizado. O importante é escolher um horário e um formato que se alinhem com seu ritmo natural.
Conforme você pratica, algo notável acontece. Aquela voz interna que sussurra “você não é bom o suficiente” começa a encontrar resistência — não através de negação, mas através de evidência. Você não está fingindo confiança. Você está construindo-a, tijolo por tijolo, conquista por conquista.
A síndrome do impostor não desaparece quando você compreende seu lado positivo. Mas ela muda de forma. Em vez de ser um inimigo a ser derrotado, torna-se um sinal de que você está em crescimento, que está se desafiando, que está em um ambiente onde o aprendizado é possível.
Quando você sente aquele incômodo de dúvida, você pode agora fazer uma pausa e perguntar: “Como posso usar isso para me conectar melhor com as pessoas ao meu redor? Como posso transformar isso em motivação para aprender mais? Como posso documentar isso para lembrar de meu valor quando precisar?”
A leveza, neste contexto, não significa ausência de dúvida. Significa a liberdade de duvidar sem ser consumido por isso. Significa reconhecer que a dúvida pode ser um sinal de inteligência, de humildade e de capacidade de crescimento. E significa ter as ferramentas para transformar essa dúvida em ação, em conexão e em confiança genuína.