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Radar Leveza: o que os números mais recentes revelam sobre a ansiedade no Brasil

Recorde de afastamentos no INSS, salto de 134% nos benefícios ligados à saúde mental no trabalho e um quarto da população com diagnóstico: os dados que desenham o mapa da ansiedade brasileira.

30/08/2026

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O Brasil lidera o ranking mundial de transtornos de ansiedade desde as estimativas da OMS, e os dados mais recentes mostram onde o problema aparece com mais força: no trabalho. Em 2025, a Previdência Social concedeu mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais, recorde histórico com alta de quase 16% sobre 2024 — mulheres respondem por 63% dos casos. O observatório da OIT e do MPT registra crescimento de 134% nos benefícios ligados à saúde mental no trabalho em dois anos, movimento que motivou a exigência de gestão de riscos psicossociais na NR-1. Na base de tudo, o Covitel estima que 26,8% dos adultos já receberam diagnóstico de ansiedade. O Radar analisa os três conjuntos de dados e o que fazer com eles.

Faz quase uma década que o Brasil aparece no topo do ranking mundial de transtornos de ansiedade, desde que a Organização Mundial da Saúde estimou que 9,3% da população brasileira convivia com o problema — quase o triplo da média global. De lá para cá, a pergunta deixou de ser se a ansiedade é um problema coletivo e passou a ser onde ela está aparecendo com mais força. As respostas mais recentes vêm de um lugar revelador: as estatísticas do trabalho.

Os dados da Previdência Social sobre 2025 mostram um recorde de afastamentos por transtornos mentais, com ansiedade e depressão no topo da lista. O levantamento da Organização Internacional do Trabalho com o Ministério Público do Trabalho registra um salto de três dígitos nos benefícios ligados à saúde mental em apenas dois anos. E o inquérito nacional Covitel lembra que, por trás dos números previdenciários, existe uma base ainda maior: mais de um quarto dos brasileiros adultos relata já ter recebido diagnóstico de ansiedade.

O Radar desta semana organiza esses três conjuntos de dados — o que cada um mede, o que eles dizem quando lidos em conjunto e o que você pode fazer com essa informação.

Afastamentos por transtornos mentais batem recorde: mais de 546 mil em 2025

Essencial

A Previdência Social concedeu 546 mil benefícios por incapacidade temporária ligados a transtornos mentais e comportamentais em 2025 — alta de quase 16% sobre os 472 mil de 2024, com transtornos ansiosos e episódios depressivos no topo da lista.

Contexto

O crescimento acompanha uma tendência geral de aumento nas concessões de benefícios por incapacidade, mas o recorte de saúde mental tem características próprias. O rosto dos afastamentos é majoritariamente feminino: as mulheres somaram 346 mil concessões em 2025, mais de 63% do total, contra quase 200 mil entre os homens — especialistas associam o abismo à dupla jornada e à pressão social. A geografia também é reveladora: São Paulo lidera com quase 150 mil benefícios, seguido por Minas Gerais (83 mil) e Rio Grande do Sul (46 mil), concentrando a crise nos grandes centros urbanos e industriais.

Perspectiva leveza

Afastamento é o fim de um processo, não o começo. Antes do benefício vieram meses de insônia, irritabilidade, queda de rendimento e sintomas físicos ignorados. Se você reconhece esses sinais em si ou em alguém da equipe, o momento de agir é antes do atestado — com avaliação profissional, ajustes de carga e, quando preciso, tratamento.

OIT e MPT registram salto de 134% nos benefícios ligados à saúde mental no trabalho

Essencial

O Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho, da Iniciativa SmartLab (OIT e Ministério Público do Trabalho), mostra que os benefícios por incapacidade associados à saúde mental no trabalho passaram de 201 mil em 2022 para 472 mil em 2024.

Contexto

Entre os afastamentos de natureza ocupacional, as reações ao estresse respondem por 28,6% e a ansiedade por 27,4% — à frente dos episódios depressivos. Setores como bancos, hospitais e supermercados ampliaram sua participação nos registros. O dado ajudou a sustentar uma mudança regulatória importante: a Norma Regulamentadora n.º 1 foi atualizada para obrigar as empresas a identificar e gerenciar riscos psicossociais, como sobrecarga, assédio e carga mental excessiva, dentro da gestão de segurança e saúde no trabalho. No plano global, OMS e OIT estimam 12 bilhões de dias de trabalho perdidos por ano com depressão e ansiedade, a um custo próximo de US$ 1 trilhão.

Perspectiva leveza

A mensagem da NR-1 é que ambiente de trabalho também adoece — e que prevenir deixou de ser gentileza para virar obrigação legal. Vale conhecer seus direitos: se a sobrecarga ou o assédio fazem parte da sua rotina, o tema agora tem amparo formal para ser levado ao RH, à CIPA ou ao sindicato.

Um em cada quatro adultos brasileiros já recebeu diagnóstico de ansiedade

Essencial

O inquérito nacional Covitel estimou que 26,8% dos brasileiros adultos já receberam diagnóstico médico de ansiedade — entre os jovens de 18 a 24 anos, a proporção sobe para 31,6%; entre as mulheres, para 34,2%.

Contexto

Conduzido pela Vital Strategies e pela Universidade Federal de Pelotas com 9.000 entrevistados de todas as regiões, o Covitel dimensiona a base populacional sobre a qual os recordes previdenciários se erguem. O resultado conversa com a posição histórica do país: desde as estimativas da OMS de 2017, o Brasil aparece como o país com maior prevalência de transtornos de ansiedade do mundo (9,3% da população, contra média global de 3,6%). As metodologias diferem — o Covitel mede diagnóstico autorrelatado ao longo da vida; a OMS, prevalência estimada —, mas ambas colocam o Brasil em posição de destaque negativo.

Perspectiva leveza

Um quarto da população com diagnóstico significa que a ansiedade está na sua roda de amigos, na sua família e na sua equipe — falar sobre ela com naturalidade é parte do cuidado. Também significa cautela com autodiagnóstico: sentir ansiedade diante de desafios é fisiologia; um transtorno é outra coisa, e quem diferencia os dois é um profissional.

O que isso significa para você?

Os três levantamentos medem coisas diferentes — diagnóstico ao longo da vida, afastamentos formais e recorte ocupacional —, mas contam a mesma história: a ansiedade brasileira saiu do território do desabafo e entrou nos registros oficiais, com peso desproporcional sobre mulheres, jovens e trabalhadores dos grandes centros. Para você, a leitura prática tem três camadas: reconhecer sinais precoces (sono ruim persistente, tensão constante, queda de rendimento) antes que virem afastamento; usar as portas de entrada gratuitas do SUS — UBS e CAPS — sem esperar o limite; e, no trabalho, saber que a gestão de riscos psicossociais agora é exigência da NR-1, o que dá respaldo formal para conversas sobre sobrecarga.

Termômetro da semana

Atenção

Os recordes de afastamento revelam um problema grave e ainda em expansão, mas há sinais concretos de resposta: a ansiedade entrou de vez na agenda regulatória (NR-1) e estatística do país, condição necessária para políticas públicas e corporativas de prevenção.

Como ler esses números sem se afogar neles

Estatísticas de saúde mental medem coisas diferentes: a Previdência conta afastamentos formais concedidos, e o observatório da OIT olha o recorte ocupacional. Os números não se somam — mas apontam na mesma direção. O sofrimento psíquico saiu da esfera privada e entrou nos registros oficiais, o que tem um lado duro e um lado promissor: duro porque revela a dimensão do problema; promissor porque o que é medido passa a ser tratado como questão de saúde pública e de gestão, não como fraqueza individual.

Se os sintomas de ansiedade têm atrapalhado seu sono, seu trabalho ou suas relações, isso tem nome, tem tratamento e tem porta de entrada gratuita: as Unidades Básicas de Saúde e os Centros de Atenção Psicossocial do SUS. Buscar ajuda cedo muda o curso da história — os afastamentos que batem recorde são, muitas vezes, o desfecho de sinais que passaram meses sem atenção.

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LACERDA, P. Dados da Previdência sobre saúde mental do trabalhador preocupam. Radioagência Nacional, Brasília, 28 jan. 2026. ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO; MPT. Brasil: afastamentos por problemas de saúde mental aumentam 134%. Nações Unidas Brasil, 17 abr. 2025. ROCHA, L. Mais de 26% dos brasileiros têm diagnóstico de ansiedade, diz estudo. CNN Brasil, 29 jun. 2023. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Depression and other common mental disorders: global health estimates. Genebra: WHO, 2017.