Compreenda as fases do luto e permita-se sentir sem pressa de "superar"
29/01/2026
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Quando enfrentamos a perda de algo ou alguém significativo, experimentamos uma das emoções mais profundas e desafiadoras da existência humana. Essa reação natural que chamamos de luto é frequentemente associada apenas ao falecimento, mas sua abrangência é muito maior. A perda pode manifestar-se de múltiplas formas: no término de relacionamentos importantes, na saída de um emprego, no abandono de objetivos que nos motivavam, em transições de fase da vida ou diante de mudanças na saúde que alteram nossa perspectiva de futuro.
Reconhecer que o processo de luto se estende além da morte é fundamental para validar todas as suas manifestações. Cada despedida, independentemente de sua magnitude, merece ser honrada e processada com o tempo necessário. Infelizmente, a sociedade contemporânea frequentemente nos pressiona a retomar rapidamente nossas atividades, como se a dor pudesse ser superada em prazos determinados. A verdadeira transformação, porém, ocorre quando permitimos que nossas emoções fluam naturalmente, acompanhadas de compaixão genuína por nós mesmos.

A psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross revolucionou a forma como entendemos o luto ao identificar padrões emocionais em seus estudos com pacientes em fase terminal. Seu modelo descreve movimentos emocionais que as pessoas frequentemente experimentam, embora seja crucial compreender que esses padrões não seguem uma sequência rígida. Cada indivíduo vivencia essas fases de maneira única, podendo experimentá-las simultaneamente, saltando entre elas ou retornando a fases anteriores.
1. Negação: funciona como um mecanismo de proteção psicológica. Diante da magnitude da perda, a mente resiste à realidade, criando uma barreira temporária. Expressões como “Não acredito que isso está acontecendo” refletem essa fase.
2. Raiva: conforme a negação diminui, sentimentos intensos emergem frequentemente disfarçados de cólera. Essa raiva pode direcionar-se à pessoa que partiu, ao universo, a profissionais envolvidos ou até mesmo a si próprio.
3. Negociação: a mente busca recuperar algum controle através de tentativas de “acordo”. Surgem questionamentos como “E se eu tivesse agido diferentemente?” ou promessas a forças superiores em troca de alívio.
4. Tristeza profunda: quando a realidade da perda se torna inescapável, a dor emocional intensifica-se. Este período caracteriza-se por retraimento, falta de energia e sensação de vazio. Diferencia-se da depressão clínica por ser uma resposta direta e esperada à perda.
5. Integração: este não é um estado de “tudo bem”, mas sim de aprendizado a conviver com a ausência. A dor permanece, porém deixa de ser o centro da existência. Gradualmente, a energia volta a fluir para o presente e para novas possibilidades.
Um processo de luto que segue seu curso natural, embora intenso, evolui progressivamente. A dor inicial diminui em intensidade, e a pessoa reconstrói gradualmente sua conexão com a vida cotidiana. Diferentemente, o luto prolongado ou complicado persiste com força incapacitante por períodos estendidos, impedindo o funcionamento diário e a retomada de atividades essenciais. Quando isso ocorre, a orientação profissional de um terapeuta especializado em processos de luto torna-se essencial para desenvolver estratégias de ressignificação.

Não existe um roteiro universal para o luto, mas práticas compassivas podem facilitar a jornada. O fundamento é a autocompaixão: oferecer a si mesmo o mesmo acolhimento que você dedicaria a alguém querido em sofrimento.
•Honre suas emoções: reconheça e nomeie o que sente. Tristeza, fúria, confusão, alívio, culpa. Cada sentimento é legítimo e merece espaço. Suprimir emoções apenas estende o processo de cicatrização.
• Estabeleça rituais significativos: práticas simbólicas marcam transições importantes. Podem incluir acender uma vela em memória, escrever uma carta de despedida, plantar algo que cresça ou compilar memórias em um objeto físico.
• Explore expressão criativa: quando palavras são insuficientes, outras linguagens emergem. Pintura, escrita, música, movimento corporal e dança oferecem canais para comunicar o que está além das palavras.
• Cultive conexões significativas: conversar com pessoas de confiança, participar de grupos que compartilham experiências similares e permitir-se ser visto em sua vulnerabilidade reduz o isolamento e distribui o peso emocional.
• Respeite seu próprio cronograma: O luto não segue calendários. Haverá momentos de maior dificuldade e períodos de relativa leveza. Cada pessoa tem seu ritmo, e comparações apenas geram culpa desnecessária.

Embora pareça paradoxal, o luto pode eventualmente abrir espaço para o que pesquisadores denominam crescimento pós-adversidade. Ao atravessar profundamente a dor, muitas pessoas relatam redescoberta de valores, aprofundamento de relacionamentos, expansão de resiliência emocional e reordenação de prioridades. Não é uma “recompensa” pela perda, mas evidência da capacidade humana de extrair significado mesmo das circunstâncias mais desafiadoras.
Transitar pelo luto é um processo profundo e transformador. Trata-se não de “superar” ou apagar a memória, mas de integrar a perda de forma que permita que a vida continue florescendo. Quando a dor parecer insuportável, lembre-se de que buscar apoio profissional é um ato de força e autocuidado. Um terapeuta especializado em luto oferece um espaço seguro e ferramentas práticas para reconstruir significado e esperança após uma perda importante.