Cansaço persistente, lapsos de memória e humor em baixa podem ter relação com a falta de um único nutriente, e investigar essa hipótese costuma exigir apenas um exame de sangue.
12/10/2026
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Cansaço que não melhora com uma noite bem dormida, esquecimentos que começam a se repetir, uma irritação difícil de explicar, o ânimo mais baixo do que de costume. Quando esses sinais aparecem juntos, a explicação quase sempre recai sobre o estresse, a rotina puxada ou a ansiedade. Muitas vezes é isso mesmo. Há, porém, uma causa possível que raramente entra na conversa e que pode ser investigada com um exame de sangue simples: a falta de vitamina B12.
A vitamina B12, também chamada de cobalamina, participa de processos que o sistema nervoso usa o tempo todo. Ela é necessária para formar e manter a bainha de mielina, a camada que reveste os neurônios e permite que os impulsos elétricos circulem com rapidez. Também atua, ao lado do folato, no ciclo de metilação, que dá origem à S-adenosilmetionina, uma molécula envolvida na síntese de serotonina, dopamina e noradrenalina, neurotransmissores ligados ao humor, à motivação e à atenção.
Quando a B12 está em falta, esse ciclo perde eficiência e a homocisteína, um aminoácido que deveria ser convertido, se acumula no sangue. Níveis elevados de homocisteína aparecem com frequência em pesquisas sobre declínio cognitivo e depressão. Em uma revisão publicada no Journal of Psychopharmacology em 2005, os pesquisadores Alec Coppen e Christina Bolander-Gouaille reuniram evidências de que níveis baixos de folato e de B12 são comuns entre pessoas com depressão e defenderam que esses nutrientes fossem considerados na avaliação clínica desses pacientes.

Um dos trabalhos mais citados sobre o tema saiu no New England Journal of Medicine em 1988. O hematologista John Lindenbaum e sua equipe, da Universidade Columbia, analisaram 141 pacientes com alterações neurológicas ou psiquiátricas causadas pela deficiência de B12 e constataram que 40 deles não tinham anemia nem alteração no tamanho dos glóbulos vermelhos, os sinais clássicos que costumam levantar a suspeita. Ou seja: o problema pode atingir o sistema nervoso antes de aparecer no hemograma.
Em pessoas mais velhas, a associação com o humor também aparece. No Women’s Health and Aging Study, conduzido nos Estados Unidos com cerca de 700 mulheres acima de 65 anos, a epidemiologista Brenda Penninx e colegas observaram que as participantes com deficiência de B12 tinham duas vezes mais chance de apresentar depressão grave (American Journal of Psychiatry, 2000). Na Holanda, o Estudo de Roterdã, com 3.884 idosos, encontrou relação semelhante entre B12 baixa e transtornos depressivos.
Isso não transforma a vitamina em antidepressivo. Uma metanálise publicada na revista Nutrients em 2021, conduzida por pesquisadores da Universidade de Zurique, avaliou 16 ensaios clínicos e não encontrou melhora de sintomas depressivos, cansaço ou cognição com a suplementação em pessoas sem deficiência estabelecida ou doença neurológica avançada. A leitura mais honesta dos dados é esta: corrigir uma deficiência real pode fazer diferença; tomar B12 quando os níveis já estão adequados, provavelmente não.
O corpo armazena B12 no fígado por anos, por isso a falta costuma se instalar devagar e passar despercebida. Alguns grupos merecem atenção redobrada:

A recomendação diária para adultos é de 2,4 microgramas, quantidade pequena e fácil de atingir em uma alimentação com produtos de origem animal. Fígado bovino, mariscos e ostras estão entre as fontes mais concentradas. Sardinha, salmão, atum, carnes, ovos, leite e queijos completam a lista. Aquele fígado acebolado que muita gente associa ao almoço de domingo na casa dos avós, por exemplo, entrega em uma única porção várias vezes a necessidade do dia.
Para quem não consome alimentos de origem animal, as opções são os produtos fortificados (algumas bebidas vegetais, cereais e leveduras nutricionais enriquecidas) e a suplementação com orientação profissional. Algas como a spirulina costumam ser apontadas como fonte, mas, segundo o NIH, a forma presente nelas é em grande parte inativa no organismo humano e não serve para cobrir a necessidade.

Se você se reconhece em algum dos grupos de risco e tem notado cansaço, esquecimentos ou mudanças de humor que não se explicam bem, peça ao médico a dosagem de vitamina B12. Conte quais medicamentos usa e há quanto tempo, e descreva seu padrão alimentar com sinceridade. Quando o resultado fica na faixa limítrofe, exames complementares, como ácido metilmalônico e homocisteína, ajudam a esclarecer o quadro.
Evite começar a suplementar por conta própria só para ver se melhora. Além de atrasar um diagnóstico preciso, essa estratégia pode encobrir outras causas para os sintomas. E se o desânimo estiver pesado, procure acompanhamento psicológico ou psiquiátrico sem esperar o resultado de exame algum: a saúde mental tem muitas camadas, e a nutrição é uma delas, não a única. Em momentos de crise, o CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, a qualquer hora.