Da solidão como questão de saúde pública ao celular sobre a mesa e às máquinas que soam empáticas, as pesquisas mais relevantes mostram onde a tecnologia afasta as pessoas e onde pequenas escolhas fazem diferença.
11/10/2026
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Um jantar entre amigos, a conversa flui e, a cada pequena pausa, alguém confere o celular. Ninguém tem a intenção de ser indelicado, e mesmo assim o clima muda. Essa sensação difusa, que muita gente reconhece e poucos sabem nomear, vem sendo medida em laboratórios, em cafeterias e em grandes bases de dados. Nos últimos anos, universidades e organismos internacionais passaram a investigar o que acontece com a empatia e com os vínculos quando parte relevante da vida social passa pelas telas e, mais recentemente, por conversas com inteligência artificial. Este Radar reúne quatro frentes de pesquisa que ajudam a separar o alarme da evidência.
Essencial: relatório da Comissão sobre Conexão Social da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgado em junho de 2025, estima que uma em cada seis pessoas no mundo é afetada pela solidão e associa o problema a mais de 871 mil mortes por ano, cerca de cem por hora.
Contexto: a comissão foi copresidida pelo médico norte-americano Vivek Murthy, ex-cirurgião-geral dos Estados Unidos, e pela zimbabuana Chido Mpemba, e reuniu especialistas de diferentes países. O documento mostra que a solidão é mais frequente entre jovens de 13 a 29 anos, faixa em que de 17% a 21% relatam se sentir sozinhos, e em países de baixa renda, onde o índice chega a 24%, o dobro do registrado nos países ricos. O isolamento e a solidão aparecem ligados a doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, depressão, ansiedade e morte precoce. O alerta conversa com uma meta-análise clássica da psicóloga Julianne Holt-Lunstad, da Universidade Brigham Young, publicada na PLOS Medicine em 2010: ao reunir 148 estudos com mais de 300 mil participantes, a pesquisa concluiu que pessoas com laços sociais mais fortes tinham 50% mais probabilidade de sobrevivência no período acompanhado.
Perspectiva Leveza: quando a principal autoridade sanitária do mundo trata a conexão social como fator de saúde, ela passa a ocupar a mesma prateleira do sono e da atividade física. Aquele café adiado há meses deixa de ser um luxo da agenda e passa a ser cuidado preventivo.

Essencial: diferentes experimentos indicam que a simples presença de um smartphone à vista durante uma conversa reduz a sensação de proximidade e a empatia percebida entre as pessoas.
Contexto: em 2013, os pesquisadores Andrew Przybylski e Netta Weinstein, da Universidade de Essex, no Reino Unido, publicaram no Journal of Social and Personal Relationships um estudo em que duplas de desconhecidos conversavam com ou sem um celular por perto. Com o aparelho no campo de visão, os participantes relataram menos proximidade e confiança, efeito mais forte quando o assunto era significativo. Três anos depois, uma equipe liderada por Shalini Misra, da Virginia Tech, observou cem duplas em cafeterias de Washington e publicou os resultados na revista Environment and Behavior: quando um celular era colocado sobre a mesa ou segurado durante a conversa, os participantes percebiam menos preocupação empática do interlocutor, sobretudo entre amigos próximos. Em 2018, pesquisadores da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, mostraram que pessoas que deixavam o celular à mão durante refeições com amigos e familiares aproveitavam menos o momento e se sentiam mais distraídas.
Há ainda um dado de fundo que costuma reaparecer nesse debate. Uma meta-análise conduzida por Sara Konrath, então na Universidade de Michigan, e publicada em 2011 na Personality and Social Psychology Review, reuniu 72 estudos com universitários norte-americanos e identificou queda nos indicadores de empatia entre 1979 e 2009, mais acentuada a partir dos anos 2000. Os próprios autores ressaltam que o levantamento não prova causa, e a tecnologia aparece como uma entre várias hipóteses.
Perspectiva Leveza: virar o celular com a tela para baixo ajuda pouco, porque o efeito parece vir da presença do objeto, que sinaliza que a atenção pode ser interrompida a qualquer momento. Em conversas que importam, deixar o aparelho na bolsa ou em outro cômodo é um gesto simples que o outro percebe, mesmo sem comentar.
Essencial: em avaliações cegas, respostas de chatbots têm sido julgadas mais empáticas do que as de profissionais humanos, mas a mesma mensagem perde valor quando as pessoas sabem que ela veio de uma inteligência artificial.
Contexto: em 2023, um estudo liderado por John Ayers, da Universidade da Califórnia em San Diego, publicado na JAMA Internal Medicine, comparou respostas de médicos e do ChatGPT a 195 perguntas de saúde postadas em um fórum público. Uma banca de profissionais de saúde, sem saber a autoria, preferiu as respostas do chatbot em 79% das avaliações e as classificou como empáticas com frequência quase dez vezes maior. Em 2025, uma equipe da Universidade de Toronto, com Dariya Ovsyannikova e Michael Inzlicht, publicou na Communications Psychology resultados na mesma direção: em quatro estudos com 556 participantes, respostas geradas por IA foram consideradas mais compassivas do que as escritas por pessoas, inclusive por especialistas em atendimento a crises. O contraponto veio da Universidade Hebraica de Jerusalém. Em nove estudos com mais de 6 mil participantes, publicados na Nature Human Behaviour em 2025, Matan Rubin, Anat Perry e colegas mostraram que mensagens idênticas eram avaliadas como mais empáticas, acolhedoras e autênticas quando os participantes acreditavam que vinham de um humano. Quando buscavam envolvimento emocional, as pessoas escolhiam de forma consistente a interação humana.
Perspectiva Leveza: o conjunto dessas pesquisas sugere que empatia envolve mais do que palavras bem escolhidas. Parte do que as pessoas valorizam é saber que alguém dedicou tempo e atenção a elas. A tecnologia pode ajudar você a encontrar as palavras para uma mensagem difícil; a presença de quem a envia continua insubstituível.

Essencial: pesquisa do MIT Media Lab em parceria com a OpenAI encontrou associação entre o uso diário mais intenso do ChatGPT e níveis mais altos de solidão e dependência emocional.
Contexto: divulgado em março de 2025, ainda sem revisão por pares, o trabalho combinou duas frentes. Na primeira, o MIT acompanhou cerca de mil participantes durante quatro semanas. Na segunda, a OpenAI analisou de forma automatizada quase 40 milhões de interações na plataforma. Segundo os pesquisadores, quanto maior o uso diário, em qualquer modalidade, maiores eram a solidão, a dependência e o uso problemático, e menor a socialização com outras pessoas. Conversas de caráter pessoal com o chatbot estiveram associadas a mais solidão, e os efeitos foram menos intensos no modo de voz. A análise de uso indicou ainda que as interações de teor emocional se concentram em um grupo relativamente pequeno de usuários muito assíduos.
Perspectiva Leveza: a pesquisa não demonstra que a IA cause solidão; pessoas que já se sentem sozinhas podem recorrer mais a ela. Ainda assim, o dado funciona como sinal de atenção: se o chatbot passou a ocupar o espaço de conversas que antes você tinha com amigos ou familiares, convém reequilibrar.
Nenhuma dessas pesquisas sugere abandonar a tecnologia. O que elas indicam são escolhas pequenas que preservam a qualidade dos vínculos:
Classificação geral: atenção, com espaço para ação
As pesquisas trazem alertas consistentes sobre solidão e distração, mas também mostram que o leitor tem margem real de escolha no dia a dia.

Durante as refeições com outras pessoas, onde costuma ficar o seu celular?
A era digital multiplicou as formas de estar em contato, mas os estudos deixam claro que contato e conexão são coisas diferentes. A empatia continua dependendo de atenção, tempo e disponibilidade, recursos que nenhum aplicativo consegue gerar por você. Esses recursos, por outro lado, respondem a escolhas cotidianas. Pense em uma pessoa com quem você gostaria de conversar com calma nesta semana, marque um horário e deixe o celular longe da mesa quando o encontro acontecer.