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O papel do magnésio na saúde: muito além das câimbras

Presente em mais de 300 reações do organismo, o magnésio influencia pressão arterial, glicemia, ossos e sistema nervoso. Entenda o que a ciência já sabe, onde encontrá-lo e quando o suplemento faz sentido.

21/10/2026

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O magnésio ficou famoso como remédio para câimbras, mas é justamente aí que as evidências são mais fracas: uma revisão Cochrane de 2020 não encontrou benefício relevante em adultos mais velhos. O mineral, porém, participa de mais de 300 sistemas enzimáticos e tem efeitos mais consistentes sobre pressão arterial, risco de diabetes tipo 2 e prevenção da enxaqueca. O artigo explica por que muita gente consome menos do que precisa, quais grupos merecem atenção, por que o exame de sangue engana, quais alimentos são boas fontes e quando o suplemento faz sentido, com limites e interações.

Quem já acordou no meio da noite com a panturrilha travada provavelmente ouviu a mesma sugestão: tome magnésio. O mineral ganhou fama de remédio para câimbras, e é justamente aí que as evidências a favor dele são mais frágeis. O papel do magnésio se espalha por quase todos os sistemas do corpo, do ritmo do coração ao controle do açúcar no sangue.

Um mineral que trabalha em quase tudo

O corpo de um adulto guarda cerca de 25 gramas de magnésio, segundo o Escritório de Suplementos Alimentares dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH). Entre 50% e 60% desse total fica nos ossos; a maior parte do restante está nos músculos e em outros tecidos moles. Menos de 1% circula no sangue.

O mineral atua como cofator em mais de 300 sistemas enzimáticos, que regulam a síntese de proteínas, a função de músculos e nervos, a glicemia e a pressão arterial. Também está no centro da produção de energia: o ATP, molécula que abastece as células, precisa estar ligado ao magnésio para ser biologicamente ativo. Quando ele falta, a contração e o relaxamento muscular, o ritmo cardíaco e a transmissão dos impulsos nervosos perdem a regulação fina.

E as câimbras, afinal?

Em 2020, uma revisão sistemática da Colaboração Cochrane, conduzida por pesquisadores liderados por Scott Garrison, da Universidade de Alberta, no Canadá, reuniu os ensaios clínicos sobre magnésio contra câimbras musculares. A conclusão: em adultos mais velhos com câimbras sem causa definida, a suplementação provavelmente não traz benefício clinicamente relevante. Para as câimbras da gestação, os resultados foram conflitantes; para as ligadas ao exercício, não havia estudos suficientes.

A deficiência do mineral pode, sim, causar espasmos em quadros mais graves. Mas a maioria das câimbras noturnas tem outras origens, como fadiga muscular, desidratação ou efeito de medicamentos, e o suplemento tomado por conta própria raramente resolve o problema.

Onde a ciência encontra benefícios mais consistentes

Se a fama nas câimbras é exagerada, outras funções do magnésio recebem menos atenção do que deveriam:

  • Pressão arterial: uma metanálise publicada em 2016 na revista Hypertension, com 34 ensaios clínicos e mais de 2 mil participantes, mostrou que cerca de 368 mg diários de magnésio, por três meses, reduziram a pressão sistólica em 2 mmHg e a diastólica em 1,78 mmHg. O efeito é modesto para cada pessoa, mas relevante em escala populacional.
  • Diabetes tipo 2: o mineral participa da ação da insulina nas células. Uma análise de dose-resposta publicada no BMC Medicine em 2016, com dados de mais de 1 milhão de pessoas, associou cada 100 mg a mais de magnésio na dieta a um risco 19% menor de desenvolver a doença.
  • Enxaqueca: diretrizes da Academia Americana de Neurologia e da Sociedade Americana de Cefaleia, publicadas em 2012, classificaram o magnésio como provavelmente eficaz na prevenção das crises.
  • Sono: uma revisão sistemática de 2021, no BMC Complementary Medicine and Therapies, viu sinais de que o mineral encurta o tempo para adormecer em idosos, mas com evidências de baixa qualidade.

Por que tanta gente fica abaixo do recomendado

A ingestão diária recomendada para adultos, definida pela Academia Nacional de Medicina dos Estados Unidos e usada como referência em pesquisas de consumo também no Brasil, é de 310 a 320 mg para mulheres e de 400 a 420 mg para homens. Na prática, o refino dos grãos remove boa parte do mineral, e os ultraprocessados costumam ser pobres nele. Inquéritos nacionais americanos mostram que boa parte da população consome menos do que precisa, e a Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE (2017-2018) também colocou o magnésio entre os nutrientes com alta prevalência de ingestão inadequada entre os brasileiros.

Alguns grupos pedem atenção extra: idosos, que absorvem menos e eliminam mais o mineral; pessoas com diabetes tipo 2 mal controlado; quem tem doenças intestinais, como doença de Crohn e doença celíaca; quem consome álcool em excesso; e usuários prolongados de diuréticos ou de inibidores da bomba de prótons, os protetores gástricos como o omeprazol. Em 2011, a FDA, agência reguladora americana, alertou para o risco de magnésio baixo com o uso desses protetores por mais de um ano.

Há ainda uma armadilha no diagnóstico. Como menos de 1% do magnésio está no sangue e o organismo retira o mineral dos ossos para manter esse nível estável, o exame comum de magnésio sérico pode vir normal mesmo quando os estoques estão baixos.

Comida primeiro, suplemento com critério

A forma mais segura de garantir magnésio é pelo prato. Alguns exemplos, com base nos dados do NIH:

  • sementes de abóbora torradas (28 g): cerca de 156 mg;
  • sementes de chia (28 g): cerca de 111 mg;
  • amêndoas (28 g): cerca de 80 mg;
  • espinafre cozido (meia xícara): cerca de 78 mg;
  • castanha de caju (28 g): cerca de 74 mg;
  • feijão-preto cozido (meia xícara): cerca de 60 mg.

O suplemento faz sentido quando há deficiência confirmada ou risco aumentado, sempre com orientação de médico ou nutricionista. Para adultos, o limite superior tolerável do magnésio vindo de suplementos é de 350 mg por dia; o teto não inclui o mineral dos alimentos, que o organismo regula bem. O excesso costuma causar diarreia, e quem tem doença renal corre risco de acúmulo. O suplemento também interfere em antibióticos como tetraciclinas e quinolonas e em bifosfonatos para osteoporose. A forma química conta: o óxido de magnésio, comum e barato, é pouco absorvido e tem efeito laxativo, enquanto citrato, lactato, aspartato e cloreto são absorvidos de modo mais completo.

O magnésio que está (ou falta) no seu prato

Antes de comprar um frasco por causa de uma câimbra, observe a sua rotina alimentar. Se grãos integrais, feijão, folhas escuras e castanhas aparecem pouco, o primeiro ajuste está aí, com fibras e potássio de brinde. Se você faz parte de um grupo de risco ou usa medicamentos que interferem no mineral, leve o assunto à próxima consulta. Cuidar do magnésio é uma forma discreta de cuidar, ao mesmo tempo, do coração, do metabolismo e dos ossos.

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