O Brasil segue sem mudar os relógios neste verão, enquanto Estados Unidos e Europa voltam a discutir o tema. Entenda o que a ciência do sono diz sobre essa hora a mais ou a menos.
1/11/2026
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[Sassy_Social_Share]Neste domingo, 1º de novembro, milhões de norte-americanos acordam com uma hora extra no relógio: é o fim do horário de verão nos Estados Unidos. Uma semana antes, foi a vez da Europa atrasar os ponteiros. No Brasil, os relógios seguem como estão pelo oitavo verão seguido, e o Ministério de Minas e Energia confirmou em setembro que nada muda na temporada 2026/2027. A coincidência de datas reacende uma discussão que deixou de ser apenas energética e passou a ocupar laboratórios de sono e revistas científicas: afinal, mexer no relógio faz mal à saúde?
O Radar desta semana reúne as três frentes do debate: a decisão brasileira, o movimento internacional para acabar com a troca de horário e o que os estudos mostram sobre o efeito dessa mudança no corpo.
O Ministério de Minas e Energia (MME) informou que não pretende adotar o horário de verão neste ciclo. Segundo a pasta, os estudos do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) não indicam benefício relevante para o sistema.
O horário de verão foi adotado pela primeira vez no país em 1931 e, nas últimas décadas, valia para as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Ele foi extinto pelo Decreto nº 9.772, de abril de 2019, com o argumento de que a economia de energia havia se tornado pequena. A explicação está numa mudança de hábito: o pico de consumo, que antes ocorria no começo da noite, quando as luzes se acendiam enquanto chuveiros e fábricas ainda funcionavam, migrou para a tarde, puxado pelo ar-condicionado. Adiantar o relógio pouco altera esse cenário.
Em 2024, com a seca reduzindo os reservatórios das hidrelétricas, o governo chegou a avaliar a volta da medida, mas desistiu. Neste ano, um relatório de monitoramento do MME de 31 de agosto, reforçado por nota de 21 de setembro, manteve a suspensão e afirmou que a pasta não considera o horário de verão uma medida estrutural para atender às necessidades de potência do sistema elétrico. O tema segue em acompanhamento e pode voltar à pauta se as condições de abastecimento mudarem.
A decisão é energética, não de saúde pública. Ainda assim, ela tem um efeito colateral favorável ao sono: sem a troca de horário, o relógio biológico de quem vive no Sul, no Sudeste e no Centro-Oeste não precisa se readaptar em plena primavera. Para quem sentia o corpo fora do eixo nas primeiras semanas de cada horário de verão, é uma fonte de desajuste a menos.

Estados Unidos e União Europeia continuam trocando o relógio duas vezes por ano, apesar de propostas antigas para acabar com a prática. A divergência agora é sobre qual horário fixar: o padrão ou o de verão.
Nos Estados Unidos, o Senado aprovou em 2022 o Sunshine Protection Act, que tornaria o horário de verão permanente, mas o texto não avançou na Câmara. Em fevereiro deste ano, um novo projeto, o Daylight Act of 2026, propôs uma saída intermediária: ajustar os relógios em apenas 30 minutos e encerrar as trocas. A proposta não andou. Na Europa, o Parlamento Europeu votou em 2019 pelo fim da mudança sazonal, mas os países nunca chegaram a um acordo sobre qual horário adotar, e o assunto ficou parado no Conselho da União Europeia. Em outubro de 2025, a Espanha voltou a pedir que o bloco encerrasse as trocas.
As entidades médicas têm posição definida. A Academia Americana de Medicina do Sono (AASM), em documento oficial publicado em 2020 no Journal of Clinical Sleep Medicine, defende o fim das trocas e a adoção permanente do horário padrão, mais alinhado ao ciclo natural de luz e escuridão. O argumento: com o horário de verão fixo, as manhãs ficariam escuras por mais tempo no inverno, e a luz extra no fim do dia atrasaria ainda mais o relógio interno.
O debate internacional mostra que a escolha mais intuitiva, ter mais luz no fim da tarde o ano inteiro, não é necessariamente a mais saudável. A luz da manhã é a principal referência que o cérebro usa para acertar o relógio biológico. Quando ela chega tarde, o corpo tende a dormir e acordar mais tarde, o que entra em choque com horários fixos de trabalho e escola.

Estudos associam a semana seguinte ao adiantamento do relógio a mais infartos, mais acidentes de trânsito e pior qualidade de sono. Uma análise da Universidade Stanford estimou que fixar o horário padrão traria os maiores ganhos de saúde.
Um dos dados mais citados vem de um estudo publicado em 2014 na revista Open Heart por pesquisadores da Universidade de Michigan. Ao analisar registros de hospitais do estado, eles observaram aumento de 24% nos atendimentos por infarto na segunda-feira seguinte ao adiantamento dos relógios e queda de 21% na terça-feira após o retorno ao horário padrão. O total de casos na semana não mudou, o que sugere que a perda de sono antecipa eventos em pessoas que já estavam vulneráveis.
No trânsito, um levantamento da Universidade do Colorado em Boulder, publicado em 2020 na Current Biology, examinou mais de 732 mil acidentes fatais nos Estados Unidos entre 1996 e 2017 e encontrou alta de cerca de 6% nas mortes na semana seguinte à mudança de primavera. O efeito foi mais forte nas áreas situadas no extremo oeste de cada fuso, onde o descompasso entre relógio e sol já é maior.
Em setembro de 2025, pesquisadores de Stanford publicaram na revista PNAS uma modelagem baseada em dados de saúde de condados norte-americanos. Comparando três cenários (o atual, com trocas; o horário padrão fixo; e o horário de verão fixo), concluíram que o horário padrão permanente teria o menor custo para o ritmo circadiano. A estimativa: cerca de 2,6 milhões de pessoas a menos com obesidade e aproximadamente 300 mil casos de AVC evitados por ano no país. Os autores observam que os resultados variam conforme a latitude, a posição dentro do fuso e o cronotipo de cada pessoa.
Por trás desses números está um fenômeno que o cronobiologista Till Roenneberg, da Universidade Ludwig Maximilian de Munique, chamou de jet lag social: a diferença entre o horário que o corpo prefere e o que a agenda impõe. Em estudo publicado em 2012 na Current Biology, com dados de mais de 65 mil pessoas, sua equipe associou esse descompasso a um índice de massa corporal mais alto. O horário de verão, na prática, amplia o jet lag social de boa parte da população durante meses.
Uma hora parece pouco, mas o organismo não se ajusta a ela de um dia para o outro. Um estudo de 2007, também na Current Biology, mostrou que o ritmo de sono e vigília acompanha a mudança gradual do nascer do sol ao longo das estações, mas não se adapta por completo ao salto abrupto do relógio. Isso ajuda a explicar por que muita gente sente cansaço, irritabilidade e dificuldade de concentração por dias, às vezes semanas, depois da troca.

Mesmo sem horário de verão no Brasil, o tema tem aplicação direta no seu dia a dia. Algumas situações merecem atenção:
Leitura geral da semana: Morno. Semana de impasse político e consenso científico crescente: os governos seguem sem decisão definitiva, mas a ciência do sono fala cada vez mais a mesma língua.
Escala: Frio | Morno | Quente
Brasil mantém o horário de verão suspenso: morno, decisão de estabilidade, sem mudança na rotina, mas com o tema ainda em monitoramento.
Estados Unidos e Europa sem acordo sobre o fim das trocas: frio, propostas paradas há anos e nenhuma perspectiva de solução no curto prazo.
Evidências sobre os efeitos da troca de horário na saúde: quente, estudos robustos e posição clara de entidades médicas em favor do horário padrão fixo.

Se a decisão fosse sua, o Brasil deveria:
A discussão sobre o horário de verão vai continuar, no Brasil e fora dele, movida por cálculos de energia, interesses do comércio e pressões políticas. O que a ciência do sono oferece é um critério simples para acompanhar esse debate: o corpo funciona melhor quando o relógio social fica próximo do relógio solar. Você não controla os decretos, mas pode decidir quanta luz recebe pela manhã, a que horas desliga as telas e quanta regularidade dá ao seu sono. Essas escolhas pesam mais na sua saúde do que a posição dos ponteiros.