Roncos altos, cansaço persistente e despertares que você nem lembra podem ser sinais de uma condição que afeta um terço dos adultos e tem tratamento eficaz
10/06/2026
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Você dorme oito horas, mas acorda como se não tivesse descansado nada. Ao longo do dia, a sonolência insiste em aparecer, a memória falha e a paciência fica curta. Para muita gente, a explicação não está na quantidade de sono, e sim na qualidade de cada respiração durante a noite. A apneia obstrutiva do sono é uma das condições de saúde mais comuns e, ao mesmo tempo, mais subdiagnosticadas que existem.
A apneia obstrutiva do sono é um distúrbio respiratório no qual a via aérea superior, na altura da garganta, fecha de forma parcial ou total durante o sono. A cada bloqueio, a passagem de ar é interrompida por dez segundos ou mais, o nível de oxigênio no sangue cai e o cérebro reage com um microdespertar para reabrir a garganta. Esse ciclo pode se repetir dezenas, às vezes centenas de vezes por noite, e a pessoa raramente percebe que isso está acontecendo.
O resultado é um sono fragmentado, que nunca alcança as fases mais profundas e reparadoras. É por isso que a pessoa pode passar muitas horas na cama e ainda assim acordar exausta. Os sinais mais comuns incluem ronco alto e frequente, pausas na respiração percebidas por quem dorme ao lado, engasgos noturnos, sono não reparador, dor de cabeça matinal e sonolência excessiva durante o dia.

Por muito tempo, acreditou-se que a apneia atingia de dois a quatro por cento da população. Esse cenário mudou quando o Estudo Epidemiológico do Sono de São Paulo, conhecido como Episono e conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo sob coordenação do professor Sergio Tufik, avaliou uma amostra representativa de moradores da cidade por meio de polissonografia, o exame padrão-ouro feito durante o sono.
Os números surpreenderam. Segundo dados do Episono publicados na revista Sleep Medicine em 2010, cerca de 32,9 por cento dos adultos da capital paulista tinham apneia obstrutiva do sono. A edição mais recente do estudo, divulgada na Journal of Sleep Research em 2026, encontrou prevalência semelhante, de aproximadamente 32,9 por cento, chegando a 40,6 por cento entre os homens. Em escala global, estima-se que cerca de 936 milhões de pessoas convivam com a condição, segundo análise publicada na The Lancet Respiratory Medicine.
A apneia não rouba apenas o descanso. As quedas repetidas de oxigênio e os microdespertares mantêm o corpo em estado de alerta durante a noite, elevando a pressão arterial e sobrecarregando o sistema cardiovascular. Com o tempo, isso se associa a um risco maior de hipertensão, arritmias, infarto, acidente vascular cerebral, diabetes tipo dois e até envelhecimento celular acelerado.
A relação com a hipertensão é especialmente forte. Em pessoas com hipertensão resistente, aquela que não se controla mesmo com três ou mais medicamentos, a apneia está presente em algo entre cinquenta e oitenta por cento dos casos, conforme revisões publicadas em periódicos médicos. A sonolência diurna, por sua vez, multiplica o risco de acidentes de trânsito e de trabalho, o que torna o problema também uma questão de segurança.

Alguns fatores aumentam a chance de desenvolver apneia: excesso de peso, circunferência de pescoço aumentada, idade mais avançada, ser do sexo masculino, características anatômicas da face e da garganta e, no caso das mulheres, o período após a menopausa. Vale lembrar que pessoas magras também podem ter a condição.
Se você ronca de forma intensa, sente sono durante o dia mesmo após dormir o suficiente ou alguém já notou que você para de respirar enquanto dorme, vale conversar com um médico. O diagnóstico costuma começar com questionários de triagem, como o STOP-BANG, e se confirma com a polissonografia, que mede quantas vezes a respiração é interrompida por hora de sono.
A boa notícia é que a apneia tem tratamento eficaz, e ele é personalizado conforme a gravidade. Para casos moderados a graves, o padrão-ouro é o aparelho de pressão positiva contínua nas vias aéreas, conhecido pela sigla CPAP. Ele funciona como um fluxo de ar suave que mantém a garganta aberta durante a noite, evitando os bloqueios.
Os benefícios vão além do sono. Uma análise publicada na The Lancet Respiratory Medicine em 2025 apontou que o uso da pressão positiva está associado a menor mortalidade por causas cardiovasculares e por todas as causas em pessoas com apneia. Há ainda evidências de redução da pressão arterial, especialmente em quem tem hipertensão resistente, e de menor incidência de novos casos de hipertensão. O ponto crítico é a adesão: o aparelho só protege quando usado com regularidade.
Para casos leves ou como complemento, outras estratégias entram em cena, como perda de peso, redução do consumo de álcool à noite, mudança da posição de dormir, aparelhos intraorais que reposicionam a mandíbula e, em situações específicas, cirurgias. A escolha sempre depende de avaliação individual.

Dormir bem é um pilar da saúde tão importante quanto a alimentação e o exercício. Quando o sono não repara, o corpo inteiro sente, do humor ao coração. Se os sinais descritos aqui soam familiares, encare isso não como simples cansaço, mas como um convite a investigar. Procurar um especialista do sono pode ser o passo que transforma suas noites e protege seus próximos anos. Cuidar de como você respira enquanto dorme é, no fim das contas, cuidar de como você vive desperto.