Pequenas práticas de presença ao longo do dia ajudam a recuperar o foco, reduzir o cansaço mental e trabalhar com mais clareza
25/06/2026
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Você senta para escrever um relatório, mas, antes de digitar a primeira frase, abre o e-mail “só para conferir”. Surge uma notificação, depois outra, e quando percebe já se passaram quarenta minutos — e o relatório continua em branco. Se essa cena parece familiar, saiba que ela tem explicação, e também tem saída: a atenção pode ser treinada, e o mindfulness oferece um caminho prático para isso.
Pesquisadores de Harvard, Matthew Killingsworth e Daniel Gilbert, mediram com um aplicativo de celular o que milhares de pessoas pensavam ao longo do dia. O resultado, publicado na revista Science em 2010, chama a atenção: as pessoas passavam cerca de 47% das horas acordadas pensando em algo diferente daquilo que estavam fazendo. E essa dispersão mental estava associada a menos bem-estar, e não a mais.
No trabalho, esse vaivém da mente tem um custo concreto. A pesquisadora Gloria Mark, da Universidade da Califórnia em Irvine, acompanha há mais de duas décadas como profissionais lidam com interrupções. Em seu estudo “The Cost of Interrupted Work”, ela observou que, depois de uma interrupção, leva-se em média 23 minutos e 15 segundos até retomar plenamente a tarefa original. No livro Attention Span, de 2023, Mark relata ainda que o tempo médio de atenção em uma única tela caiu para cerca de 47 segundos — e que boa parte das interrupções é provocada por nós mesmos.

Mindfulness, ou atenção plena, costuma ser definido como prestar atenção de propósito, ao momento presente, sem julgamento. O conceito foi popularizado no Ocidente por Jon Kabat-Zinn, criador do programa de Redução de Estresse Baseada em Mindfulness na Universidade de Massachusetts. No contexto do trabalho, não se trata de meditar horas a fio nem de esvaziar a mente. Trata-se de perceber para onde sua atenção foi e, com gentileza, trazê-la de volta — quantas vezes forem necessárias.
Essa habilidade pode ser fortalecida. A neurocientista Amishi Jha, da Universidade de Miami, estuda como o treino de mindfulness afeta a atenção e a memória de trabalho, inclusive em grupos sob alta pressão, como equipes militares. Suas pesquisas indicam que programas breves e regulares de prática ajudam a proteger a capacidade de foco justamente nos períodos mais exigentes — quando ela costuma se deteriorar.
A atenção plena no trabalho se constrói em pequenas doses, encaixadas na rotina que você já tem. Algumas estratégias com bom respaldo:
| Experimente agora: a pausa de um minuto Antes de abrir a próxima tarefa, pare por sessenta segundos. Feche os olhos, se puder, e leve a atenção à sua respiração — sem controlá-la, apenas observando o ar entrar e sair. Quando notar a mente vagando para a lista de pendências, reconheça o pensamento e, sem se cobrar, volte à respiração. Ao final, abra a próxima tarefa com a intenção de fazer só aquilo. Repita essa pausa nas transições entre atividades ao longo do dia. Com o tempo, ela vira um hábito — e o retorno ao foco fica mais fácil. |

Aplicar mindfulness ao trabalho não significa render mais em menos tempo a qualquer custo. Significa estar presente no que você faz, gastando menos energia com a dispersão e mais com aquilo que importa. O foco, como qualquer capacidade, responde ao treino: quanto mais você pratica o retorno à tarefa, mais natural ele se torna.
Você não precisa reorganizar a rotina inteira hoje. Escolha uma única prática — a pausa de um minuto, talvez — e experimente por alguns dias. A atenção plena é menos sobre fazer tudo perfeitamente e mais sobre recomeçar com gentileza, sempre que perceber que se distanciou. E esse recomeço, repetido, é o que aos poucos transforma a forma como você trabalha.