Da psilocibina aos moduladores do glutamato e à estimulação cerebral acelerada, entenda o que mudou para quem não melhora com os antidepressivos tradicionais.
2/08/2026
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Poucas áreas da medicina se moveram tão rápido nos últimos anos quanto o cuidado com a depressão que não responde aos remédios de sempre. Para quem já tentou dois, três ou mais antidepressivos sem sentir alívio, a ciência começou a desenhar caminhos que pareciam distantes há uma década. Nesta edição do Radar Leveza, você encontra um panorama sereno e criterioso do que realmente avançou — e do que ainda exige cautela.
A notícia em 3 níveis
Essencial
Novas terapias para a depressão resistente ao tratamento — de moduladores do glutamato, como a cetamina e a esketamina, à psilocibina e à estimulação magnética acelerada — reuniram evidências relevantes em 2025 e 2026, ampliando as opções para quem não melhora com os antidepressivos convencionais.

Contexto
A depressão resistente ao tratamento é definida, de forma geral, como o quadro em que a pessoa com transtorno depressivo maior não responde adequadamente a pelo menos dois tratamentos feitos na dose e no tempo corretos. Não é raro: estima-se que até um terço das pessoas com depressão não obtenha resposta suficiente após várias tentativas. Por muito tempo, as alternativas para esses casos eram poucas, e a eletroconvulsoterapia permanecia como um dos únicos recursos disponíveis. Esse cenário vem mudando.
A primeira frente de avanço vem dos moduladores do sistema glutamatérgico. A esketamina intranasal (Spravato) foi aprovada pela Anvisa em 2020 para depressão resistente e para casos com risco suicida iminente, sempre com administração supervisionada em ambiente de saúde. Seu diferencial é a rapidez: enquanto os antidepressivos clássicos levam semanas para agir, a esketamina pode reduzir sintomas em horas. Revisões brasileiras publicadas em 2025, como as veiculadas no Brazilian Journal of Health Review, reforçam a eficácia da cetamina e da esketamina na melhora rápida dos sintomas, com atenção especial ao efeito sobre a ideação suicida.
A segunda frente, mais recente, é a da psilocibina. A empresa Compass Pathways divulgou, em junho de 2025 e no início de 2026, resultados de dois estudos de Fase 3 (COMP005 e COMP006) com uma formulação sintética da substância, a COMP360, administrada junto a apoio psicológico. Segundo os comunicados da companhia e a cobertura da Psychiatric Times, foi o primeiro psicodélico clássico a apresentar dados de Fase 3 para depressão resistente, com uma diferença estatisticamente significativa de 3,6 pontos na escala MADRS em relação ao placebo seis semanas após uma única dose. Os efeitos adversos mais comuns — dor de cabeça, náusea e alterações visuais — foram, em sua maioria, leves e passageiros. Ainda assim, trata-se de um tratamento em fase de avaliação regulatória, não disponível para uso livre.
A terceira frente é a da neuromodulação. A estimulação magnética transcraniana já é reconhecida, mas protocolos acelerados mudaram o patamar. O SAINT, desenvolvido na Universidade Stanford e guiado por ressonância magnética funcional, concentra semanas de sessões em cerca de cinco dias. Em um ensaio controlado publicado no periódico Brain Stimulation, a taxa de remissão chegou a 78,6% no grupo ativo, contra 13,3% no grupo placebo — resultado que levou à aprovação do protocolo pela agência norte-americana FDA. Estudos de durabilidade publicados em 2025 investigam por quanto tempo esse efeito se mantém.
Por fim, há novos fármacos orais em uso ou em avaliação, como a zuranolona, que atua sobre o sistema GABA e foi originalmente aprovada para a depressão pós-parto, e combinações como dextrometorfano com bupropiona. Juntas, essas frentes revelam uma mudança de fundo: a depressão passou a ser compreendida como um fenômeno de circuitos e sistemas cerebrais diversos — glutamato, GABA, inflamação —, e não apenas da serotonina.
Perspectiva Leveza
Avanço não é milagre, e vale manter os pés no chão. Todas essas terapias exigem indicação e acompanhamento médico, muitas têm custo elevado ou acesso restrito, e nenhuma substitui a avaliação individualizada de um psiquiatra. Elas também não são a primeira escolha para a maioria das pessoas: fazem sentido justamente quando os tratamentos habituais não bastaram. O lado mais animador talvez seja simbólico. Ao entender a depressão como uma condição de base biológica complexa, e não como fraqueza ou falta de esforço, a ciência ajuda a dissolver um estigma que afasta muita gente do cuidado. Saber que existem mais caminhos pode ser, por si só, um alívio.
O que isso significa para você?

Termômetro da semana
| 🌡️ Esperançoso, com cautelaO clima das notícias sobre depressão resistente é de otimismo prudente. Há evidências sólidas e novas aprovações, mas também limitações de acesso, custo e tempo de acompanhamento a longo prazo.Leitura Leveza: comemore os avanços sem esperar soluções instantâneas. A melhor notícia é que ninguém precisa se resignar a “não ter mais o que fazer”. |
Um passo de cada vez
A mensagem que atravessa todas essas descobertas é simples e poderosa: para a depressão resistente, o mapa de opções está maior do que nunca. Se o caminho até aqui foi de tentativas frustradas, talvez seja a hora de uma nova conversa com um profissional de confiança. Informar-se com serenidade já é um passo — e, muitas vezes, é o primeiro.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica ou psicológica. A depressão é um tema delicado; se ele toca você de perto, buscar apoio profissional e de pessoas de confiança faz diferença.